"É um misto de sentimentos", diz Manoela Soares, 17, que só começou a estudar balé aos 13
"É um misto de sentimentos", diz Manoela Soares, 17, que só começou a estudar balé aos 13 | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Cinco, seis, sete, oito. Cinco, seis, sete, oito. O ritmo, os movimentos, as formas e a leveza. No balé, tudo conta. A barra, o espelho, a postura. Para alcançar a ponta dos pés, disciplina, sonhos e todas as marcas emprestadas pela dedicação ficam também na pele, sobretudo nos dedos. Os calos, as bolhas , os joanetes e as unhas encravadas escondem-se dentro da sapatilha, ao mesmo tempo em que um espetáculo de força e delicadeza encanta a plateia. O balé exige técnica, precisão e é reconhecido em todo o mundo. Clássico ou contemporâneo, atrai olhares desde as representações para a corte francesa até versões que se popularizam por gerações.

Manoela Jorge Soares, 17, destaca-se na dança por um motivo a mais: ela começou a fazer balé em meados de 2015, estava com 13 para 14 anos e, graças a sua performance, em outubro embarca para Vancouver, no Canadá, onde vai se aprofundar na arte da dança por um ano. A jovem foi selecionada para ingressar no elenco da Companhia de Repertório do Coastal City Ballet em Vancouver - feito considerado incomum, em razão do pouco tempo de estudo e da avançada idade com a qual iniciou. A contemplação pela bolsa é comemorada por amigos, familiares e até quem não a conhece, pois trata-se de conquista disputada.

Graças a essa novidade, Manoela irá comemorar o aniversário de 18 anos em solo canadense. "Vai ser bem diferente e especial", suspira a jovem. Ciente dos desafios, guarda na manga alguns trunfos. "Meus pais sempre me incentivaram a estudar Inglês e essa barreira felizmente eu não vou enfrentar porque falo fluentemente e domino a língua", alegra-se. Com todas as tarefas escolares em dia, a estudante decola também do Brasil com o Ensino Médio concluído.

Para a e mãe da bailarina, a pedagoga e vice-diretora escolar, Silvia Jorge, a rapidez dos acontecimentos é uma grande surpresa. "Ela só havia feito balé por um ano quando estava na escolinha, aos 6 anos de idade. Depois, nunca mais". Já adolescente, a mãe conta que Manoela começou a fazer balé como atividade física e os olhares de especialistas se voltaram para a novata. "Sinceramente, não sabíamos que ia chegar tão longe. A coisa foi tomando uma proporção muito positiva", comenta.

Sobre distância e saudade, Silvia se sente segura: "Sem querer, nós fomos a preparando para o mundo com o investimento na educação. Também me sinto segura primeiramente porque Manoela é muito responsável. Desde que começou a fazer balé passou a viajar por conta dos festivais e quando foi eleita entre as 10 melhores em uma apresentação, passou 10 dias em Nova Iorque. Outro motivo é porque a filha de uma amiga vai estudar lá e me trouxeram várias referências sobre a segurança do lugar", alivia-se. Mãe também de Caio, 22, estudante de Ciências Sociais, Silvia admite: "É um misto de sentimentos".

Prestes a afivelar as malas, Manoela segue ensaiando. São seis horas diárias na escola Ballet Karina Rezende, onde tudo começou. "E pensar que tudo começou como um hobby porque eu estava estudando muito e precisava de uma atividade física para ter equilíbrio", divide. A prima de Manoela, Bárbara Jorge, tem um papel importante em todo esse processo. "Ela sempre fez balé e me incentivou a escolher essa atividade. Dizemos que ela é culpada", brinca. Também fiz aulas de piano, futsal e hoje vejo que todas essas atividades se somam para a minha formação nesse novo caminho. Graças à fluência no Inglês, posso morar em outro país e as aula de piano foram fundamentais para eu ter disciplina, foco e aprender sobre música, pois a musicalidade é muito importante no balé", comenta. Madura e com os pés no chão, Manoela entende que será uma experiência abrangente. "Uma experiência cultural e pessoal incrível".

"Incomum, mas não impossível"

No ano em que a escola Ballet Karina Rezende completa 10 anos de trabalho, a bailarina profissional e diretora artística Karina Rezende divide com alunos muitas alegrias, uma delas é a trajetória descrita acima "A Manoela é determinada e muito inteligente. Esse fato é incomum, mas não impossível, como ela prova. Foi passando os níveis com rapidez porque é interessada e observava até as correções que eu fazia para as outras alunas. Foi conquistando o seu espaço até ser vista pela banca internacional do Festival Dançar a Vida da Promodança em São Paulo e conquistou os jurados internacionais."

Manoela Jorge Soares, 17, com a professora Karina Rezende: "Mais que um talento"
Manoela Jorge Soares, 17, com a professora Karina Rezende: "Mais que um talento" | Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

De modo conciso, a professora valoriza os degraus que a menina se propõe a alcançar. "A bolsa é de 50%, então a Manoela vai poder trabalhar e conciliar a dedicação à companhia de dança canadense." Manoela e a família se decidiram pela opção homestay, em que a pessoa se hospeda na casa de uma família local enquanto estuda no exterior. "É o momento dela, pegou cada detalhe do que eu falei e colocou na vida dela. É mais que um talento e graças a sua humildade, está abrindo caminhos e esse é só o começo", aposta Karina Rezende.

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