Um projeto pessoal da bailarina londrinense Nádia Essada está fazendo com que 12 jovens, entre 7 e 24 anos, aprendam o balé clássico. Até aí nada de mais se os novos aprendizes não fossem portadores de Síndrome de Down. Nádia e Luciana Guimarães Siquerolli - ambas do Trup Estúdio de Dança - estão, há três semanas, trabalhando voluntariamente com alunos da Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae), Instituto Londrinense de Educação para Crianças Especiais (Ilece) e Associação de Pais e Amigos de Portadores da Síndrome de Down (APS-Down). Os primeiros resultados são, segundo as bailarinas, animadores.
Nádia conta que a idéia surgiu há três anos, a partir do projeto ‘‘Dança vai a Escola’’, que o Trup desenvolve com escolas de Londrina, com apresentações de dança nos intervalos das aulas. ‘‘Em 95, a gente se apresentou na Apae e Ilece e, nestes lugares, aconteceu algo que nunca tinha acontecido antes: as crianças entraram para dançar com a gente. E foi fantástico’’ - narra. A partir daí, Nádia começou a amadurecer a idéia de trabalhar com crianças especiais. ‘‘A princípio, eu pensei em ir até as escolas e trabalhar com todos. Mas elas não têm a estrutura necessária para manter uma sala de dança. Então resolvemos trazê-los para o espaço do Trup’’- conta.
Para fazê-lo, porém, teve que fazer uma parceria com as escolas e conseguir patrocínio para os uniformes. ‘‘A maioria destas crianças é muito carente. Então as escolas fornecem os passes de ônibus para que possam vir até aqui’’ - conta. Os 12 alunos foram selecionados entre aqueles que mostraram mais interesse pela dança e cujas famílias dariam o maior apoio. ‘‘Apesar de terem os passes, elas precisam de acompanhantes para vir. Então selecionamos aqueles cujos familiares estavam dispostos a acompanhá-los duas vezes por semana’’ - explica.
Nádia e Luciana, sua assistente no Trup, se dividem nas aulas, que são realizadas às terças e quintas, com uma turma matutina e outra vespertina, com 45 minutos cada aula. ‘‘Eu queria fazer isto por uma realização pessoal. E a Luciana me deu todo apoio, fazendo este trabalho voluntário’’ - diz Nádia. Quanto às crianças, nas poucas semanas em que estão trabalhando, já mostram sinais promissores. ‘‘Eles têm muita facilidade. Claro que aprendem de maneira mais lenta que as crianças ditas normais. Mas têm vontade e são hiperflexíveis, uma característica do Down que ajuda muito na dança’’ - conta.
Segundo Nádia, o objetivo maior é, futuramente, montar um grupo de dança com crianças especiais. ‘‘A gente quer mesmo colocar estas crianças para dançar. No final do ano, eles já vão para o palco, com o resto dos alunos, para a apresentação anual da escola de dança’’ - diz. Segundo ela, a dança ajuda no desenvolvimento psicomotor e, por si só, é benéfica. ‘‘A dança é boa para todo mundo. No caso deles, ajuda com a percepção, ritmo e disciplina’’ - garante.
Anilton Bueno, 24 anos, um dos novos alunos de balé de Nádia, fala muito pouco. Mas em compensação abre um sorriso enorme quando o assunto é dançar. ‘‘Eu gosto de dançar’’ - diz simplesmente. Segundo a professora de Educação Musical do Ilece, Chizuko Yogi, as crianças estão mais do que felizes aprendendo balé. ‘‘Elas comentam na escola, na família. E até fazem demonstração do que estão aprendendo. E isto é um grande passo’’ - explica.
Para ela, a iniciativa de Nádia ‘‘caiu do céu’’. ‘‘A gente sempre procura fazer as crianças especiais terem contato com a música e a dança, o que acaba ajudando no desenvolvimento físico e emocional deles. Mas sempre lutamos com dificuldades. Por isto, iniciativas como esta são muito, muito preciosas’’ - garante.

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