Acima dos rótulos, o grupo de teatro Cemitério de Automóveis faz 16 anos e continua, convicto, na estrada

Jackeline Seglin

Há muito tempo eles propagam um estilo que incomoda muita gente, mas que tem um público cativo. Ao completar 16 anos de carreira, o grupo de teatro Cemitério de Automóveis volta a Londrina - com a mesma fama que carregou para São Paulo cerca de dois anos atrás - para apresentar cinco espetáculos na mostra que comemora mais um aniversário da trupe.
O ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto, 36 anos, um dos fundadores do grupo (na época, Chiclete com Banana), conta que pouca coisa mudou nesses anos. O grupo tranferiu-se para São Paulo e deu sequência à carreira iniciada em Londrina. ‘‘Nunca mudamos a nossa cara e nem vamos mudar. O grupo sempre soube o que queria. Não que a gente tenha achado, mas estamos procurando. Estamos mais maduros, as intenções estão mais claras e isso vem se somar ao fato de trabalharmos com pessoas diferentes que têm o mesmo modo de pensar que a gente’’, observa Bortolotto.
Quanto à fama de baderneiro e vagabundo que o grupo carrega há tempos, o diretor avisa: ‘‘A gente tá mais velho, mas continua cínico, bêbado e baderneiro. Mas até o cinismo está mais amadurecido. Aquela coisa da porra-louquice por si só não tem mais.’’
Em São Paulo, a coisa não é diferente. O rótulo ainda acompanha o grupo. Mário Bortolotto revela que algumas pessoas não ‘‘aturam’’ o Cemitério de Automóveis, seja pelo estilo ou pela postura do grupo. ‘‘E isso não vai parar de existir. O grupo não vai derrubar esse estilo, porque a gente não faz isso para chocar ninguém.’’
O trabalho apresentado pelo grupo londrinense na capital paulista também esbarra em rótulos. ‘‘Nosso trabalho é diferente. Lá, os grupos também ensaiam seis meses, fazem pesquisa etc. Nosso processo é outro. A gente sai para beber e na mesa do bar fala sobre a peça. Fazemos apenas uns quatro ou seis ensaios. Por isso as pessoas acham que a gente não leva o trabalho a sério. O fato é que trabalhamos sempre com coisas muito próximas a nós: literatura maldita, rock-n’-roll, quadrinhos... Coisas do nosso dia-a-dia.’’
A crítica teatral agora está mais constante na carreira do grupo. ‘‘Mas, como sempre, ela se divide. Seja no Rio, em São Paulo ou Londrina. Tem quem goste muito e tem quem odeie. Mas tem críticos que não falam do trabalho, apenas sobre as pessoas do grupo, porque simplesmente não gostam da gente. É somente uma crítica pessoal’’, diz.
O fato de mudar para São Paulo, na opinião de Mário Bortolotto, tem criado mais possibilidades para o Cemitério de Automóveis. ‘‘Eu sempre estréio meus espetáculos em Londrina, que é minha cidade. Mas possibilidades de ter o trabalho nacionalmente conhecido e mais respeitado só mesmo em São Paulo’’, avalia. O dramaturgo confessa que desde o começo soube que seu trabalho teria um espaço na capital paulista. ‘‘E tem dado certo. Já fomos indicados para prêmios importantes e tivemos um forte reconhecimento em menos de dois anos. Mas a gente também nada contra a corrente. Um público tradicional de teatro pode não gostar do nosso trabalho.’’ O reconhecimento inclui o Prêmio Mambembe de melhor ator coadjuvante para Everton Bortotti, além das indicações ao Prêmio Shell de melhor autor e ator para Mário Bortolotto, por ‘‘Medusa de Rayban’’ e ‘‘Santidade’’ respectivamente.
Bortolotto opinou várias vezes, ao longo de sua carreira, que faz teatro para ele mesmo. ‘‘Primeiro tenho que agradar a mim mesmo para então agradar às pessoas que me interessam, às pessoas que gostam do meu trabalho’’, justifica. Para o diretor, existem espetáculos que chamam mais a atenção de determinado público por causa do apelo popular mais fácil. E isso não seria interesse do grupo. ‘‘Eu também gosto do besteirol e sei fazer. Mas quero fazer outras coisas e continuar fiel às pessoas que gostam do meu trabalho.’’ Em São Paulo, o grupo está tentando formar um público próprio. ‘‘Geralmente, o nosso público não vai a teatro. São pessoas que acham o teatro chato. E não vamos mudar nosso estilo para agradar à uma platéia maior. Prefiro ser fiel ao meu público’’, defende.
O repertório de espetáculos que o Cemitério de Automóveis traz a Londrina na mostra dos 16 anos faz parte da trajetória do grupo. Mário Bortolotto diz que o seu núcleo de atores continua o mesmo em anos. ‘‘O grupo não renova o elenco todo ano. E se estou com um mesmo grupo, por que desmontar uma peça para montar outra?’’, questiona. O diretor diz que seus atores não são carreiristas, como acontece em São Paulo. ‘‘Estes querem o teatro como trampolim para a televisão. É claro que não vou proibir um ator meu de fazer TV. Meus atores são convidados para trabalhar em outras montagens, mas dificilmente aceitam porque não combinam com as outras formas de trabalho.’’
Os planos do Cemitério de Automóveis para os próximos meses são a estréia da peça ‘‘A Lua é Minha’’ em Londrina (no mês que vem) e da montagem ‘‘Getsêmani’’ (em março ou abril), que fecha a trilogia iniciada por ‘‘Medusa de Rayban’’ e ‘‘Postcards de Atacama’’.
Mostra Cemitério de Automóveis - Hoje, às 21 horas, no Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243): ‘‘Será que a Gente Influencia Caetano’’. Amanhã (esgotado) e terça-feira, às 21 horas, no teatro Zaqueu de Melo (Av. Rio de Janeiro, 113): ‘‘Rolex, o Anti Velox’’. Ingressos a R$ 10,00 (funcionários e clientes Banestado, contribuintes da Funcart e funcionários municipais têm 50% de desconto).

mockup