São Paulo, 27 (AE) - Em seu segundo CD, "Millennium", o quinteto Backstreet Boys retorna à cena como um grupo veterano. Hanson e Spice Girls chegaram um pouco antes, mas foram os Boys que influenciaram o maior número de imitadores e fã-clubes. Os New Kids dos anos 90 trazem a reboque N Sync, Boyzone, 98 Degrees, G-Quad ("a resposta de Quebec aos Backstreet Boys"), C Note, além do retorno de Old Kids originais (Jordan Knight e Joey McIntyre), um ex-Menudo (Ricky Martin) e uma versão feminina da fórmula, Britney Spears.
Apesar do aumento da concorrência, o grupo arrisca pouco em "Millennium". Continua a gravar canções de amor com batida eletrônica e a repetir os clichês que, nos ouvidos de seu público infantil, soam como palavras mágicas - repare como as letras nada mais são do que variações com as palavras "want" (quero), "need" (preciso), "way" (jeito), "back" (de volta), "heart" (coração) e "love" (amor). Como todo indivíduo imaturo, tem horas que eles querem (I Want It That Way) e horas que não querem (Dont Want You Back). Eis a questão. Não dá para confundi-los com universitários.
Em seu novo vídeo, o quinteto aparece cercado por fãs de todas as raças, tendo um avião particular ao fundo. A evocação da Beatlemania é calculada. Mas se os pais dos anos 60 execravam os cabeludos "emaconhados", o mesmo não pode ser dito sobre os Boys. São tão bons moços que, em "The Perfect Fan", agradecem suas mães por terem lhes dado boa educação.
As letras inofensivas têm acompanhamento de new jack swing, estilo dos anos 80 que combina doo-wop, rhythm and blues e batidas do hip-hop. Com as roupinhas brancas que viraram uniforme na capa do CD e no último vídeo, os Boys ainda evocam diretamente um grupo de new jack que teve bastante sucesso há poucos anos, o Boyz II Men. A diferença é que os Boyz não levavam crianças brancas à histeria. Os Boyz eram negros.
O único jovem negro que fez meninas brancas trocarem cotoveladas e arrancarem os cabelos foi Michael Jackson. Ele faz parte da receita que compõe a gororoba pop dos Backstreet Boys. É difícil ouvir a faixa de abertura "Larger Than Life" ou o candidato a hit "Dont Want You Back" sem pensar em Jackson - em especial na fase sem inspiração que o cantor atravessa nessa década. E que enquanto os trabalhos mais recentes de Jackson acumulam prejuízo, os Backstreet Boys geram lucros sobre lucros.
No meio da enxurrada de boyclonagem, os Backstreet Boys têm, ao menos, o mérito de ter conquistado espaço no mercado contra o interesse da indústria. Seu sucesso passa atestado de incompetência para os executivos bem pagos das grandes gravadoras. A América tinha acabado de considerar descartada sua última onda de boys, encerrada no hit "Step by Step" dos New Kids on the Block. Achando que o negócio era grunge, a Mercury deixou passar os Backstreet Boys. Sobrou para a Jive, gravadora especializada em hip-hop, comprar o passe da banda. A Jive foi atenta o suficiente para perceber como o rhythm and blues pós-new jack estava vendendo e como um grupo do gênero formado por adolescentes brancos poderia vender muito mais.
Mesmo assim, o quinteto só foi conhecer o sucesso quando desembarcou na Inglaterra, onde Take That e Spice Girls disputavam concurso de popularidade com o Oasis. Quando os Boys bateram Oasis e Spice Girls no prêmio da audiência da MTV Europa
em 1996, a América despertou. Os Backstreet Boys ocuparam o espaço das Spice Girls. Eles foram os primeiros. Portanto, maior é sua culpa.
New Kids - É relevante reparar que o empresário do quinteto costumava ser o tour manager dos New Kids on the Block. E que Jordan Knight e Joey McIntyre, os bonitinhos dos New Kids, acabam de lançar-se em carreira-solo, pegando carona no revival. Mesmo assim, a crítica americana, que torcia o nariz para o "boy bop", o apelido do gênero criado pelos New Kids, tem sido benevolente e elogiosa com sua versão anos 90. Há poucas semanas
a Rolling Stone não só deu capa para Britney Spears como cobriu de estrelas o álbum de Jordan Knight - destaque da edição, ao lado de Ricky Martin e Joey McIntyre.
Jordan voltou amparado pelos produtores Jimmy Jam e Terry Lewis, que transformaram a caçula da família Jackson na adulta Janet. O CD, que tem o nome do cantor, é funkeado e sensual como os velhos LPs dos New Kids. Quem poderia prever que os New Kids seriam considerados influência relevante para o pop do fim do milênio. Será sinal do apocalipse?

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