Bach de Maurizio Pollini é quieto e denso
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 2010
Sidney Molina<br> Folhapress 
O som do CD deixa o piano um pouco ao fundo, ausente: o efeito está lá, mas é como se não houvesse o contato físico entre mãos e teclas, pés e pedais, martelos e cordas. Em uma primeira audição, Maurizio Pollini parece fazer um Bach mais harmônico, com ênfase na arquitetura estrutural. Mas a impressão deixa de predominar a partir da segunda escuta da recém-lançada gravação do primeiro volume de ''O Cravo Bem Temperado''.
A primeira coleção de 24 prelúdios e fugas, que seguem em progressão de meio em meio tom através das 12 tonalidades maiores e menores, foi completada por Johann Sebastian Bach (1685-1750) em 1722.
O pianista milanês nunca havia gravado Bach. Artista do prestigioso selo Deutsche Grammophon desde 1971, completou 68 anos em 5 de janeiro. Sua discografia inclui as principais obras de Beethoven e Chopin, mas também cultiva o século 20, tendo registrado Boulez, Nono e a integral para piano solo de Schoenberg.
Embora não chame a atenção em um primeiro momento, o teor contrapontístico da escrita bachiana (as melodias que imitam umas às outras em tempos defasados) está presente em sua interpretação. Mas não vem acompanhado de cores, brilhos e ornamentos, como na versão de Andras Schiff, nem de contrastes de articulações e tempo, como na gravação de 2008 de Angela Hewitt.
Parece que Pollini constrói um ''Cravo Bem Temperado'' passível de diversas magnitudes de ''zoom'', todas ao mesmo tempo independentes e integradas, como se cada camada comentasse, a seu modo, aspectos diversos da arte de Bach.
Não apenas as entradas dos temas das fugas estão cuidadosamente equalizadas, mas elementos aparentemente menos importantes também sobressaem, como o desenho formado pelas notas longas no prelúdio em fá menor.
O segredo parece ser o controle do fluxo temporal: nenhuma linha é interrompida, não há gratuidade. Não há esforço aparente (digital e intelectual) nem qualquer exibicionismo.
Mas essa homogeneidade jamais se torna ''fria'': nunca desanda o amálgama improvável entre delicadeza, lucidez e densidade. A quietude das antológicas interpretações dos prelúdios e fugas em dó sustenido menor, ré sustenido menor e lá menor faz lembrar pinturas de Vermeer, o que corrobora a tese do crítico Edward Said de ser Pollini um ''curador do repertório'', cujas performances são capazes de gerar verdadeiros ''ensaios sem palavras''.
Já há algum tempo Pollini deixou de ser um pianista favorito dos pianistas e, ao privilegiar a ambiência sobre o brilho, sua versão pode mesmo incomodar alguns aficionados. Mas o mínimo que podemos dizer é que as camadas austeras de seu Bach revelam algo da natureza profunda do barroco e evidenciam, de modo inteligente e generoso, ressonâncias ricas entre o mundo da música e o mundo mais amplo da cultura.
SERVIÇO
■ O Cravo Bem Temperado
Artista - Maurizio Pollini
Gravadora - Deutsche Grammophon
Quanto - R$ 90 (CD duplo)


