Babilônia resistiu ao tempo
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 1998
Maranúbia Barbosa Especial para a Folha 
Para alegrar o humor da rainha, que andava suspirando pelos cantos, saudosa das montanhas do norte do país, o rei Nabucodonosor ordenou que fossem construídos jardins, com muitas árvores e flores sobre terraços de grande altura. Por conta de um capricho da mulher amada nasceram os jardins suspensos da Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo antigo. As paredes do palácio de Nabucodonosor foram decoradas com baixos-relevos retratando cervos e leões. Os jardins luxuriantes eram como um oásis no meio daquela paisagem árida.
Uma das cidades mais antigas do mundo, a Babilônia tem muita história para contar. A Torre de Babel, que os homens construíram tentando chegar aos céus fica exatamente na Babilônia. Vem da Torre de Babel a diversidade de línguas, como um castido imposto por Deus à prepotência dos homens. Lenda ou não, no local existem vestígios de torres que dão suporte à história. O mais famoso texto de todos tempos, onde vigorosa a lei do Talião, que fazia valer o código do olho por olho, dente por dente, foi elaborada por Hamurábi, que reinou na Babilônia de 1793 a 1759 antes de Cristo.
Dificilmente daria para descrever com precisão o que significa estar no sítio arqueológico da Babilônia. Distante cerca de 80 quilômetros de Bagdá, a Babilônia fica numa planície rodeada por florestas de tamareiras. Todos os vestígios da cidade estão incrivelmente preservados. Ruínas do palácio, plataformas dos jardins e esculturas de leões falam de um passado de glórias. Nas construções foram usados tijolos de barro cozido, que resistem incólumes ao tempo. Um dos tijolos traz uma inscrição: Eu sou o rei da Babilônia, filho de Nabopalassar, e assina em baixo - Nabucodonosor.
Todos os caminhos que levavam à Babilônia percorriam estradas perfeitas. Verdadeiras obras de engenharia, alguns trechos estão conservados como na época em que foram construídos. Pode-se notar a riqueza do subsolo iraquiano no que restou das estradas da Babilônia: o calçamento já usava o betume derivado de petróleo que aflorava há mais de 2 mil anos a.C.
Abrindo a via que leva à Babilônia está a reconstrução da porta de Ishtar, divindade do panteão assírio-babilônico. Deusa da fecundidadde, Ishtar é associada à Astarté, frequentemente citada na Bíblia. A porta verdadeira, que era revestida por magníficos tijolos esmaltados, foi levada para Berlim por arqueólogos alemães quando das escavações realizadas entre 1899 e 1917. O que resta da decoração interna do palácio está exposto em um pequeno museu no próprio sítio arqueológico.
Para perpetuar seu governo, Saddam Hussein construiu um palácio, bem ali, nos domínios da legendária Babilônia. De proporções nababescas, o palácio de Saddam é, segundo a ONU, uma das residências oficiais onde estariam escondidas armas químicas. A área é de segurança máxima. O acesso ao palácio é terminantemente proibido, assim como direcionar câmaras fotográficas e afins.
Um outra posição do governo iraquiano também é polêmica. Como restava apenas a base do palácio de Nabucodonosor, o presidente do iraque decidiu reconstruir as partes de cima, como se supunha que fosse o original. O resultado é uma estranha mistura de estilos, mas a base original ainda se destaca.
Para muitos historiadores e arqueólogos e reconstrução é um sacrilégio e o gosto é, no mínimo, discutível. Completando a obra, o governo mandou construir um teatro onde é realizado um festival de artes anual, com grande afluência de público.
Decretos e estilos contemporâneos à parte, a Babilônia ainda é soberana. A cada passo dado, o visitante pisa na história. Babilônia, símbolo de poder, de confusão de línguas, de fausto e orgias. Numa época onde não existiam faculdades de arquitetura, os canais ligados ao Eufrates e as fortificações colossais são exemplos para os arquitetos e engenheiros de hoje.
Com quase 5 mil anos de história, a cidade sobreviveu ao tempo. E o silêncio infinito de suas alamedas faz pensar numa frase sábia: Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende do tempo e do acaso.
E é ele, o tempo, o senhor absoluto desta cidade que conta as gerações de reis que por ali passaram, que sabe o nome de cada um dos personagens da plebe numerosa que viveu em suas ruelas. O tempo é o senhor da Babilônia e, somente ao acaso deve-se a passagem de reis, da plebe, de ditadores que não vão escrever a história por muito tempo. A Babilônia ergueu jardins suspensos, torres que subiam ao céu, viu embascada o foguetório de uma guerra transmitida pelos modernos meios de comunicação e continua de pé. Nada abala a estrutura dela, a Babilônia de todos os tempos.


