Festival Internacional de Artes Cênicas reverencia a espiritualidade dos orientais

Francelino França

Arte e religiosidade comungam nos palcos paulistanos na 7ª edição do Festival Internacional de Artes Cênicas - Fiac. O evento, considerado o mais importante do gênero no País, acontece entre 15 de julho e 10 de agosto, no Teatro Municipal de São Paulo e nas unidades do Sesc, trazendo 11 companhias asiáticas e 17 espetáculos diferentes. Reunidos sob o tema ‘‘A Presença do Sagrado nas Artes’’, o público poderá desvendar as trilhas de religiões e crenças que remontam ao início da história da humanidade, em manifestações cênicas amplamente diversas.
Foram selecionados artistas e companhias da China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, Japão, Tailândia, Taiwan (Formosa), Uzbequistão e Região Autônoma do Tibete. A maior parte dos espetáculos terá legendas eletrônicas em português.
A proposta desse evento, de acordo com a presidente do Festival, Ruth Escobar, é discutir pela arte os segredos, os mistérios e a beleza deste universo desconhecido e intrigante para os ocidentais. Na verdade, conhecemos pouco do teatro que 59% da população do planeta faz. O que nos chega são as influências dessas manifestações teatrais. O poder mágico do ritual é fator preponderante na maioria das peças que serão apresentadas. Pela ótica de Escobar, os orientais não separam a tradição e a história milenar de sua sociedade com o momento presente.
Os espetáculos preservam as origens religiosas do teatro, da dança e da música. Não é somente por trás das máscaras minuciosamente pintadas, dos enigmáticos passos de dança, dos malabarismos vocais, epopéias milenares e do virtuosismo musical que reside o poder do sagrado no teatro asiático. Há muito a ser descoberto pelo público ocidental nessas 44 apresentações.
A Ópera de Pequim, responsável pela abertura do Festival hoje (somente para convidados), é considerada a maior representante das artes cênicas chinesas. Originária da província de Dalian, os 40 integrantes apresentam três espetáculos alternados (dois por dia): ‘‘A Princesa Cem-Flores’’, ‘‘A Floresta em Chamas’’ e ‘‘O Rei dos Macacos’’. O virtuosismo dos atores, pode-se dizer sacerdotes, é expresso pela voz e corpo. São as máscaras maquiadas que traduzem a alma da Ópera de Pequim.
Arte de composição, de espetáculo total, o teatro chinês incorpora o canto, a dança, as artes marciais e a mímica. Ele se apóia sobre convenções e fórmulas que os atores devem dominar. Ainda que as diferenças de figurinos, maquiagens ou repertório não sejam significativas de um gênero para o outro, é pela música, canto e sotaques locais que a Ópera de Pequim é mais facilmente reconhecida. Aos ouvidos ocidentais, os sons emanados pelos atores soam como miados de gato no cio. Mas são as máscaras pintadas nos rostos que abrigam a essência deste teatro, resistente ao tempo e às convenções.
Outra atração do Festival é a cantora Mi Jung Chung, da The National Cha’angguk Company, da Coréia do Sul, que apresenta o espetáculo ‘‘Canto P’ansori’’, a arte vocal épica da Coréia. Esta arte requer um único artista transmita somente com a voz uma saga inteira, sem qualquer acessório teatral como cenário, figurino, iluminação, maquiagem ou saídas e entradas dramáticas que auxiliam os cantores de óperas ocidentais. Carlotta Ikeda, bailarina e coreógrafa japonesa radicada na França, já se apresentou no Brasil. Desta vez, ela traz ‘‘Waiting’’ para São Paulo. Representante da terceira geração do butô, Ikeda concebeu um solo inspirado na obra da escritora franco-vietnamita Marguerite Duras.
Da Índia desembarcam em São Paulo quase 100 artistas, de três companhias diferentes. O Chorus Reperthory Teatre é o destaque. O grupo foi criado há 22 anos e apresenta três espetáculos. O primeiro será um episódio da epopéia Mahabharata, o segundo será baseado em rituais budistas e um terceiro espetáculo com números das Danças Tradicionais de Manipur.
Uma das curiosidades do Festival vem de Taiwan. O U-Theatre mostra o ‘‘Som do Oceano’’. Além de se apresentar em cidades da Ásia, da Europa e América, o U-Theatre costuma realizar suas turnês a pé. Em abril e maio de 1996, os atores percorreram toda a parte ocidental da ilha, caminhando durante o dia e representando à noite nos adros dos templos rurais.
A cultura dos Monges Tibetanos do mosteiro de Shetchen poderá ser vista com o espetáculo ‘‘Danças Sagradas do Tibete’’. Os monges de Shetchen são jovens com idades entre 16 e 25 anos; alguns estão no mosteiro desde a infância. Essas danças seguem os códigos específicos da tradição tibetana, revelando a conexão com a natureza e o cosmos.
Monâjât Yultchieva, do Uzbequistão, país da Ásia Central e ex-integrante da União Soviética, apresenta ‘‘Cantos Sufis’’. A fama de Monâjât como cantora deve-se às inovações trazidas por seu timbre e sua tessitura vocal. Ela transpôs o timbre nasal agudo de barítonos e tenores para registro grave de sua voz de contralto e desenvolveu uma nova paleta vocal e um profundo poder em suas interpretações de cantos clássicos. É ouvir para crer.
Ainda dentro da programação, entre os dias 29 de julho e 1º de agosto, a performer e professora norte-americana Nina Wise apresenta com Geoffrey Gordon o workshop Influências Asiáticas nas Artes Cênicas Contemporâneas Ocidentais. Sob o olhar de Nina, as artes cênicas no ocidente foram profundamente influenciadas pelas tradições do oriente.
Os elementos básicos dessa intertextualidade cênica serão trabalhados no workshop e são os seguintes: improvisação, o uso do ritmo, movimento e canto para criar estados meditativos; a busca de narrativas que expressem a natureza extraordinária da vida cotidiana; a busca do sagrado no processo criativo e nos objetos da vida cotidiana. Soma-se ainda exercícios que propõem aos alunos uma experiência de transe, meditação e narrativa sagrada dentro do teatro moderno.

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