Azares, coincidências, lágrimas
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quinta-feira, 03 de maio de 2001
De Londrina Especial para a Folha2 
Mais Que o Acaso andou deslumbrando resenhistas da pasteurização oficial. É compreensível. A idéia é celebrar os semi-independentes que aportaram em Hollywood nos últimos anos, indistintamente. Acolher quem chegou para contestar a ironia incorporada por uma geração de meia idade Rob Reiner, James Brooks, Nora Ephron. Trata-se de redefinir o drama romântico neste tempo de equívocos estéticos, buscar um semitom entre Woody Allen e Douglas Sirk. Em seu segundo filme, o diretor Don Roos surgiria nesta vertente, entre o respeito ao melodrama clássico e uma fórmula mais cool para preservar platéias mais, digamos, ácidas. Nada feito. Bounce, apesar de não ser indigesto, não consegue emoções genuínas.
Saídos de um romance na vida real (a propósito, o que é mesmo vida real em Hollywood?), Gwyneth Paltrow e Ben Affleck embarcaram nesta história com a nítida incumbência de injetar uma dose maciça de química romântica na trama e nas bilheterias, por extensão estratégica. Ele é Buddy Amaral (não confundir: são os Amaral de Los Angeles), publicitário arrogante e bem- sucedido que está no aeroporto para embarcar. Mas neva muito em Chicago, ele fica preso e resolve ficar na cidade. Mas transfere seu assento para alguém que conheceu no aeroporto. Resultado: um acidente mata quem sentou no lugar dele. Em meio a uma crise regada a álcool, Buddy só tem um objetivo: encontrar a viúva do falecido. E daí...
Ninguém duvida que numa trama de tal calibre há muito material para risos e lágrimas, com abundante predominância destas. E Roos quer ficar com tudo, mas é notória sua maior habilidade com os momentos de comicidade, muito superiores ao drama. Seja porque Affleck não tem qualquer idéia de como transmitir o conflito de seu personagem (suas tentativas de choro são risíveis), ou simplesmente porque o filme percorre uma trilha mil vezes transitada.
Aqui e ali Roos se assemelha ao Cameron Crowe de Jerry Maguire ( filme emblemático da vertente pós-irônica do gênero), mas Mais que o Acaso caminha todo o tempo na corda bamba da falsidade quando tenta cortejar a emoção. Esforçada, Gwyneth Paltrow entrega alguma verdade de seu personagem. (C.E.L.J.)


