As fotografias são como documentos para Aya Ono, imigrante japonesa que em 2005, desde as gravações do longa "Gaijin - Ama-me como sou", dirigido por Tizuka Yamasaki em Londrina, tornou-se bastante conhecida e respeitada. A interpretação de Titoe, rendeu a ela o prêmio de melhor atriz coadjuvante no 33º Festival Internacional de Gramado, por unanimidade. Entre as fotografias organizadas em álbuns impressos, o momento cinematográfico guarda registros emocionantes.

O primeiro papel no cinema foi aos 77 anos, quando já estava aposentada. Sem que tivesse qualquer pretensão, a atriz conquistou o troféu Kikito, objeto de desejo de tantos artistas, feito que a torna ainda mais admirada. Aos 94 anos, lúcida e em plena forma, "Iaiá", como é carinhosamente tratada, recebeu a reportagem da Folha de Londrina na semana de Natal. A anfitriã acenou da porta principal: altiva, sorridente e vestida com a camiseta do filme que a projetou.

Uma experiência marcante, que distingue uma fase de sua vida e de sua família, devido à proporção que o papel ganhou e como as gravações ocuparam o seu tempo. Quase que tudo isso não aconteceu, pois foi no último dia que a feirante aposentada levou sua fotografia para a produção do filme, almejando um lugar na figuração. Até no exterior chegou-se a cogitar quem faria a personagem Titoe. Mas quis o destino que Aya fosse além da figuração, o papel seria dela.

No teste que a colocou definitivamente em cena, dramatizou situação em que pedia perdão ao pai, no túmulo, por ter prometido voltar para vê-lo, mas não conseguiu realizar a promessa. Curiosamente ou por uma ironia do destino, uma irmã de Aya ficou no Japão à espera da família e esse combinado, infelizmente, também não pode ser vivido.

Durante as filmagens, o carinho de todos os atores e equipe de produção também marcaram o momento e, a cada lembrança, dona Aya busca fotografias para referendar o que viveu. A atriz tinha um roupeiro, o motorista a tratava como verdadeira lady e para o elenco, já era como estrela consagrada. Os olhos puxados, o corpo delicado e sua despretensão, cativaram. E cativam. A relação com a escritora, roteirista e cineasta Tizuka Yamasakaki cresceu e Aya esteve até em um aniversário da mãe de Tizuka. "Aqui as fotos", comprova carinhosamente.

DO SONHO DE PROSPERIDADE À DESILUSÃO

Quando saira do Japão com destino ao Brasil, o sonho da prosperidade motivou a família de Aya Ono a tamanho deslocamento. Assim, para dona Iaiá, interpretar a personagem não era mistério, pois a vivência se assemelhava a sua, como a de tantos gaijins que para aqui vieram, em busca de vida melhor. Seus pais foram, veridicamente, uma das 100 famílias a deixar a Terra do Sol Nascente, nos idos de 1930. "O governo japonês fazia uma propaganda de que em 10 anos ficariam ricos e poderiam voltar para o Japão. Aqui havia banana e todos gostavam da fruta", recorda Erika Silveira, a caçula dos sete filhos.

A primeira parada, em Cafelândia, interior de São Paulo, foi um golpe, uma grande decepção. O trabalho na lavoura de café era análogo à escravidão e a adaptação foi como castigo. Foram seis anos de dedicação, até que a família mudou-se para Sabaldia, onde passou a plantar algodão, café, arroz, feijão e milho. Passados alguns anos, a família decidiu trabalhar em Londrina e, desde então, esse é o lugar onde dona Iaiá vive e formou a sua família.

Quando não era a chuva que levava toda a plantação de arroz, era a malária que impedia a colheita. Uma sucessão de dificuldades impunha bravura aos imigrantes. Anos em que só a crença em dias de salvação mantinha os trabalhadores, ainda que fragilizados, de pé. Foram ludibriados, mas reforçaram a fama de pessoas fortes, honestas e lutadoras.

UMA ATRIZ QUE COLECIONA OUTROS TROFÉUS

Passados 22 anos, além das fotografias, centenas de recortes organizados em uma pasta dão a noção de como Aya Ono tornou-se reconhecida pelo papel que fez no cinema. Nas páginas de Cultura dos jornais às colunas sociais de revistas nacionais, seu trabalho foi também assunto entre críticos de cinema, bem como jornalistas experientes se empenharam para escrever o perfil da estreante. Uma realização e tanto.

Aya Ono, aos 77 anos, em cena de 'Gaijin - Ama-me Como Sou", filmado em Londrina
Aya Ono, aos 77 anos, em cena de 'Gaijin - Ama-me Como Sou", filmado em Londrina | Foto: Divulgação

Quando empunha o Kikito, Aya sorri. O sorriso é de sua natureza. O troféu orna naturalmente com a 'batian' de modo que a nonagenária parece até abstrair seu peso. Dourado e maciço, é guardado por Aya com a absoluta convicção do mérito. Um pano macio embala o objeto e, sem esconder a importância que dá a ele e o que significa para ela, após a sessão de fotos, o Kikito volta a seu local de origem, onde é conservado com todo o carinho.

Engana-se quem pensa que esse é o único troféu de Aya Ono. São necessárias três estantes da sala para organizar os prêmios do karaokê, um hobby. "São setenta", enumera. "E esses são mais leves, são diferentes", sorri. Cantar é uma de suas alegrias e até antes de a pandemia começar, sua presença em eventos era parte da rotina. Em janeiro desse ano, Aya quebrou o fêmur ao escorregar em casa, mas recupera-se com distinção e pouco faz uso de apoio para se locomover.

Ela fez questão de mostrar as flores. No jardim da fachada, há um exemplar que ganhou de uma amiga. A flor delicada imita uma garça. E nem parece de verdade. Ela tem mão boa e gosta de lidar com a terra, no jardim de inverno há uma coleção de flores em desenvolvimento. E no quintal dos fundos, mudas, terra, adubo e os potes de plásticos reciclados que se transformam em bons berços para as novas plantas.

Enquanto conversa e lembra com saudade que gosta de tratar das plantas de sua chácara, alimenta os pássaros. "São periquitos". Pega uma folha de almeirão e, delicadamente, fixa à gaiola. "Eles gostam". Aya orgulha-se de seu quintal, mostra onde há banheiros e também e espera que logo possa lidar mais com a terra. "Eu gosto de carpir. Deixa tudo limpinho", sorri. De volta à sala, oferece um café e alegra-se de ver todos servidos.

DO TRABALHO NA FEIRA À PAIXÃO PELO KARAOKÊ

Aya Tanahashi Ono nasceu na cidade de Yonezawa, Estado de Yamagata, no Japão, em 14 de agosto de 1928. Chegou ao Brasil no ano de 1933, aos 5 anos de idade. Em Londrina, desembarcou em 1940. Ela tem sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres. São 15 netos, três bisnetos e uma árvore genealógica fixada na parede da sala, sinaliza como a família dá valor a sua história. Dos 50 anos como feirante, lembra-se que o trabalho era antes e depois da venda das verduras, muitas delas cultivadas na própria horta. "Na véspera da feira, ficava limpando salsinha e cebolinha por horas e montando os maços", conta.

Quando o assunto é espiritualidade, conta que ainda frequenta e segue ensinamentos da Seisho-No-Ie. Seus hobbies se acentuaram nessa fase da vida, Aya segue no Karaokê e cultiva flores. São hábitos facilmente citados pela família acordar cedo, tomar cafezinho preto de manhã, assistir canal de TV japonês e ler livros japoneses.

Sobre a estante, uma câmera fotográfica. Aya mostra o seu equipamento. É uma Pentax PC -33 30 mm, modelo analógico. Um filme fotográfico é encontrado, mas ela não se recorda o que fotografou. Foi usado até a última chapa.

Peço licença, rebobino o rolo e fico pensando nos momentos que estão gravados ali naquele rolo de 36 poses. Uma missão para a família Ono, revelar o filme, imprimir as fotografias e reviver momentos com a matriarca.

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