Avós e netos na mesma sala de aula
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terça-feira, 09 de março de 2010
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Todo domingo, dona Satoko Ikeda, 78 anos, leva a neta, Gabriela, 9 anos, para a aula de japonês. Até aí, nada demais. Mas, chegando lá, a avó assiste à mesma aula que a neta, em uma turma composta essencialmente por avós e netos, totalizando cerca de 30 pessoas. As aulas acontecem no Centro de Convivência do Idoso, no Jardim Bandeirantes. O espaço é emprestado pela Secretaria Municipal do Idoso para o Nakayoshi Kurabu, grupo da terceira idade que há um ano vem organizando as aulas.
As carteiras são colocadas lado a lado e organizadas em forma de U, ao redor do quadro-negro. Cada aluno tem acompanhamento individual dos dois professores voluntários. É por isso que cabem, em uma mesma turma, alunos com diferentes níveis de conhecimento do idioma. Assim, crianças aprendendo seus primeiros ideogramas e idosos treinando o shuji (arte da caligrafia) podem trocar experiências e conhecimentos. ''Os mais velhos ajudam as crianças com o japonês e as crianças também podem ensinar português para eles'', observa Fukiko Okano, presidente da associação.
A pequena Gabriela ainda não ensinou nada em português para a bachan (avó, em japonês), mas diz gostar de tê-la como colega de turma. ''Ela estuda junto, me ajuda, sempre me ensina as coisas'', comenta.
Nas aulas, dona Satoko aproveita para aprender tudo o que não pôde enquanto jovem, por ser a filha mais velha (ela precisava cuidar dos irmãos mais novos, hábito comum na comunidade japonesa). ''Mas nunca é tarde pra aprender. Também é bom pra conversar. É uma forma de não atrofiar a cabeça'', justifica, acrescentando que dessa forma está se prevenindo do Alzheimer. ''Quem fica com a doença não sente, mas quem cuida sofre muito'', argumenta.
Ao final da aula, que vai das 13h30 às 15h, os alunos sempre têm outras atividades, como desenho e origami (dobradura). No último domingo, a dobradura era referente ao Hinamatsuri, o Dia das Meninas, celebrado no Japão em 3 de março. Dessa forma, o aprendizado acaba abrangendo também outros aspectos da cultura nipônica.
Boa parte das lições, aliás, é feita de pequenas ações. Antes de começar e ao fim de cada aula, é preciso fazer reverência ao professor. Os próprios alunos ajudam a organizar as mesas e cadeiras. E, ao final, o lanche servido é oferecido pelos próprios familiares dos alunos. ''Não é obrigatório. Quem quer, pega alguma coisa que tem em casa, ou prepara alguma coisa e traz'', explica a presidente do Nakayoshi Kurabu.
Assim, mesmo sem perceber, as novas gerações vão aprendendo com os mais velhos valores como respeito e cooperação. ''Não podemos deixar morrer a nossa cultura. Nossa semente está aqui. Estamos plantando para mais tarde, mesmo que não sejamos nós a colher os frutos'', afirmam Helena Suzuki e Yoshie Shimizu, membros da diretoria do grupo.
O professor de judô Liogi Suzuki, 66 anos, observa que as novas gerações têm se afastado da cultura e das tradições japonesas, em um processo que considera irreversível. Mas ele acredita que atividades como essa ajudam a minimizar o problema. ''A cultura japonesa prima pela disciplina e respeito pelo próximo e pelos ancestrais. Isso é importantíssimo em uma realidade como a nossa, em que palavras como por favor, me desculpe, obrigado e dá licença estão saindo do vocabulário'', aponta.
Apesar de todos os alunos serem japoneses ou descendentes, as aulas são abertas para qualquer pessoa que queira participar. O Centro de Convivência do Idoso fica na rua Serra Pedra Selada, 111.


