Aventureiros dominaram a ilha até o século 19
Juan Fernandez - Quando se chega a San Juan Baptista, vêem-se lá no alto do morro sete buracos abertos na rocha. Os ilhéus os chamam de Covas dos Patriotas. Nome apropriado para sua finalidade. Foram cavados por um grupo de 96 homens que lutaram pela independência chilena, para sobreviverem ao vento, ao frio e às chuvas. Eles foram desterrados para a Ilha Robinson Crusoe pelo brigadeiro Mariano Osório, em 1814, durante o período de reconquista do Chile pela Espanha.
Essa é apenas uma das muitas histórias desde que o arquipélago foi descoberto pelo navegante espanhol de origem portuguesa Juan Fernandez, em 22 de novembro de 1574. Ele havia saído do Peru com destino ao Chile em outubro de 1574. Navegar próximo à costa tornava a viagem lenta, por causa das correntes marinhas e dos ventos contrários. O trajeto poderia demorar de três meses a um ano.
Fernandez, então, afastou-se para o mar aberto. Depois de vinte e seis dias, chegou por acaso às ilhas. O navegante batizou a maior delas de Más a Tierra, a outra de Santa Clara e a mais a leste de Más a Fuera.
Fernandez quase foi queimado por ter descoberto o arquipélago. Quando saiu de lá e foi a Valparaíso, ninguém acreditou que havia feito o percurso desde Lima em um mês. Foi acusado de bruxaria e interrogado por oficiais da Inquisição, ''por ter corrompido os ventos e o mar''. O fato é registrado no livro ''A Ilha de Selkirk'', de Diana Souhami. Mas outros marinheiros comprovaram o caminho e ele foi recompensado com uma propriedade em Quillota, por serviços prestados ao rei da Espanha, e recebeu o título de piloto-chefe do mar do Sul.
Adiantando-se à concessão real, Fernandez transformou-se em colonizador e desembarcou na ilha com 60 índios, algumas cabras e galinhas e deu início a uma exploração desenfreada ao lobo-marinho, que matava para extrair o óleo que seria vendido ao Peru. Mas o navio que Fernandez havia fretado para levar seus produtos a Lima sofreu um pavoroso naufrágio e, para o cúmulo de sua desgraça, a Coroa espanhola indeferiu sua petição de domínio das ilhas. Abatido e velho, retirou-se para sua propriedade em Quillota.
Durante os séculos 17 e 18, a região transformou-se em refúgio de piratas e corsários. Um dos corsários que mais danos causou à América espanhola foi o inglês George Arson, que transformou a ilha numa base operacional. Arson chegou por lá pela primeira vez em 1741, depois de mais de oito meses de navegação e muitas penúrias. Dos sete navios e mil homens que zarparam de Portsmouth (Inglaterra), só quatro naves e 300 marinheiros desembarcaram e se recuperaram em Robinson Crusoe.
Durante a reparação da frota, Lord Arson instalou-se no bosque, mas deu uma ordem a seus homens: ''Abram uma clareira que eu quero ver o mar''. Desde então, aquele pedaço de terra, onde dizem que Arson escondeu um tesouro, passou a ser conhecido como Valle de Lord Arson.
No século 18, e em função de várias tentativas da Inglaterra e depois da França em tomar a ilha para si, a Espanha decidiu fortificá-la e povoá-la. Para lá enviou 250 homens, mais a família do governador. O forte começou a ser construído em 1749. Mas um maremoto destruiu o pequeno povoado. Dos 250 homens, apenas 40 pessoas sobreviveram porque estavam instaladas acima do vilarejo. A fortaleza nunca chegou a ser concluída e de sua construção restam apenas ruínas e canhões enferrujados.
Vários visitantes pensaram em colonizar a ilha, mas foi um suíço, Alfred Rodt, quem, em 1877, entregou um plano para as autoridades chilenas para a povoação do arquipélago. Levou 60 pessoas e uma centena de animais domésticos. Quando Rodt morreu, em 1905, a ilha tinha 122 habitantes. (P.P.)





