Enquanto você lê esta reportagem, há alguém se aventurando por aí. Alguns optam por escalar montanhas; outros, despencam de grandes alturas ou planam a muitos metros acima do chão. Seja qual for a modalidade, essas pessoas têm em comum o fascínio por desafios. Mas o que as leva a se expor a riscos, mesmo controlados?
A razão está na adrenalina. Essas situações proporcionam descargas da substância na corrente sanguínea. Isso leva a um aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial - uma forma de o organismo ficar alerta para o perigo. Os resultados são um estado de euforia e uma sensação corporal prazerosa.
É inegável a popularização dessas atividades. A razão pode estar no cotidiano. ''Atualmente, o homem vive situações de maior adrenalina e, talvez por isso, vá buscá-las em seu tempo livre'', diz o psicólogo Florival Scheroki, doutor em Psicologia Experimental e Processos Cognitivos e Afetivos pela Universidade de São Paulo (USP). Para ele, a atração pelo risco sempre existiu, mas antes o espaço para vivenciá-lo era mais delimitado.
A mudança dos tempos também é um motivo, na opinião de Regina Wielenska, da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental. ''Essas atividades são divulgadas de forma maciça, e as condições tecnológicas são muito melhores.'' Ela divide os aventureiros em dois grupos: os que se capacitam para essas atividades, e os que são atraídos pelo glamour e as praticam por impulso, ficando, por isso, expostos a mais riscos.
A cirurgiã plástica Ana Elisa Boscarioli, de 40 anos, com certeza estaria no primeiro grupo. Em maio, ela se tornou a primeira brasileira a atingir o cume do Everest. Mas, para chegar até lá, se preparou durante sete anos, com treinos em montanhas menos arriscadas.
Durante o percurso de 17 horas, Ana Elisa desequilibrou-se em trechos perigosos, apresentou sinais de hipoglicemia e desidratação e sentiu os pés petrificarem de frio. Os únicos receios eram prejudicar as mãos, seus instrumentos de trabalho, e não voltar para rever a filha, de seis anos. ''Era o sonho de uma vida, e havia o desafio de fazer algo que poucos homens e muito menos mulheres conseguiram'', diz Ana Elisa. ''Algo me dizia que eu não iria morrer.''
Mas, em um local onde o índice de mortes é de 3% dos expedicionários, não dá para garantir um final feliz. No mesmo período em que a cirurgiã esteve na montanha, o brasileiro Vítor Negrete perdeu a vida. O montanhista Rodrigo Raineri, de 37 anos, estava com Negrete e também o acompanhara na escalada feita em 2005, quando o companheiro atingiu o cume e ele ficou a apenas 15 minutos do final. ''Muitas coisas tinham dado errado e, num lugar como esse, não dá para trabalhar no limite'', diz.
Raineri havia sido o último a deixar o acampamento rumo ao topo, pois teve congelamento nos pés no dia anterior. Ele também estava sem comunicação com a base e tinha passado por vários corpos no caminho, o que o havia deixado triste. ''Para chegar ao cume, é preciso estar com um bom estado de espírito'', diz. ''Seria um bônus, mas o que vale é a experiência.''
Eventuais tragédias como a de Negrete não demovem os praticantes de perseguir suas metas. Acostumados a essa rotina de aventuras, suas vidas não seriam as mesmas sem elas. ''A pessoa se habitua aos níveis de adrenalina'', explica Scheroki.
O administrador de empresas Marcello Sacco, de 34 anos, é um viciado confesso. Já participou de corridas de aventura, enduros de moto, pulou de pára-quedas, desceu corredeiras em caiaque e explorou cavernas. Atualmente, faz ralis, escaladas e trilhas. ''Sem essas atividades, fico ansioso e de mau humor'', diz. Depois de uma boa aventura, sente-se mais relaxado, tanto pelo contato com a natureza quanto pela sensação de prazer proporcionada pela adrenalina. ''É uma forma de recarregar minhas baterias.''
Os benefícios não param por aí. Superar desafios dá autoconfiança para vencer obstáculos nos relacionamentos e na carreira profissional. ''É uma aprendizagem motora e cognitiva para a vida'', diz Scheroki. Para a psicóloga Regina, esse padrão de comportamento se torna um estilo de vida. ''A pessoa passa a buscar projetos pessoais mais desafiadores, a fim de superar metas.''

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