Aventuras sonoras
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 1999
Nelson Sato 
A música instrumental brasileira continua no ataque, e marcando gols na inversa proporção com que é anulada e relegada ao banco de reservas pelas grandes gravadoras e pela mídia. Dois novos discos elevam o gênero para as alturas: Orquestra Popular de Câmara e O Cineasta da Selva, ambos lançados pelo selo especializado Núcleo Contemporâneo. O selo, fundado há três anos, é um projeto coletivo dos músicos Mané Silveira (saxofonista), Benjamin Taubkin (pianista), Teco Cardoso (flautista e saxofonista) e Toninho Ferragutti (acordeonista).
Coletivo, ambicioso e que tem despontado na produção de discos dos associados e de pares de aventura sonora. No caso do CD Orquestra Popular de Câmara, não seria exagero qualificá-lo de impecável. É o primeiro álbum do conjunto homônimo, formado por alguns dos mais notáveis virtuoses do País.
O disco traz participação do percussionista Naná Vasconcelos, reforçando o time que já conta com os músicos citados acima e mais 9 componentes - o violeiro Paulo Freire entre eles. Já na abertura, arrebatadora, um piano melancólico acolhe os vocalizes de Mônica Salmaso introduzindo um tema que se altera gradativamente de dinâmica com a entrada dos demais instrumentos.
A canção, intitulada Bayaty, é originária do Turkmenistão e já foi gravada pelo Grupo Akhbad, no selo Real World, comandado pelo músico pop Peter Gabriel. As faixas seguintes se articulam numa trama de ritmos e melodias comoventes à qual não faltam reminiscências de Tom Jobim (na belíssima Choro Moreno), inspiração em Chiquinha Gonzaga (Gaúcho - Corta Jaca) e uma cascata de improvisos (Suíte pra Pular da Cama e Ver o Brasil).
Com a primazia do choro, o livre trânsito entre os gêneros se traduz na variedade instrumental que inclui violoncelo, viola caipira, zabumba, bandolin, acordeon, flautas indígenas, saxofones, piano e clarinetes. Potencial candidato a disco do ano (para os curiosos que chegarem a ouvi-lo), este trabalho celebra um raro encontro do erudito com o popular.
ReproduçãoOrquestra Popular de Câmara: participação especial de Naná VasconcelosNão menos estimulante é a trilha sonora do filme O Cineasta da Selva (de Aurélio Michiles), outro lançamento audacioso do selo Núcleo Contemporâneo. O trabalho soa experimentalista ao enfatizar texturas sonoras e ambiências de floresta. Vozes, paus de chuva e flautas de bambu se misturam nos arranjos criados pelos músicos Caíto Marcondes e Teco Cardoso, que contaram no projeto com a participação das cantoras Marlui Miranda e Eugenia Melo e Castro.
Para acentuar o clima do filme, a trilha serviu-se do sistema Dolby Surround na fase de mixagem. Essa tecnologia, usada pela primeira vez num CD brasileiro, cria uma sensação intensa de envolvimento transportando o ouvinte - no caso do disco em questão - ao pé do fogo numa festa de seringueiros ou a bordo de uma canoa em pleno Rio Negro entre gritos e tambores da mata amazônica.
ReproduçãoAos interessados nessas aventuras musicais, os telefones para contatos do Núcleo Contemporâneo são os seguintes: (011) 387-31386, 572-4413 e 572-4413.


