Aventuras sobre duas rodas
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terça-feira, 01 de junho de 2004
Ana Carolina Sacoman<br> Agência Estado 
São Paulo - Munidos de muita coragem e pouquíssimo dinheiro, dois jovens argentinos, Ernesto e Alberto, um dia resolveram subir numa moto e sair por aí. Um, anos depois, virou mito. O outro viveu para contar a história. A aventura pela América do Sul a bordo de uma Norton 500, apelidada de La Poderosa II, empreendida por Ernesto ''Che'' Guevara e Alberto Granado virou livro uma espécie de diário , escrito pelo futuro guerrilheiro. A viagem ganhou a telona, pelas mãos de Walter Salles: ''Diários de Motocicleta'', em cartaz no Brasil.
Passados 52 anos da expedição, o estilo de aventura resiste ao tempo, com algumas e significativas modificações. Se, antes, os garotos Che fez 24 anos durante a viagem; Alberto tinha 30 passaram pelos mais variados imprevistos, hoje, os viajantes são praticamente profissionais na função. Cada detalhe é planejado, discutido e revisto. Algumas expedições levam até um ano para serem arquitetadas. Quase não há espaço para surpresas desagradáveis.
Impossível, porém, é prever os humores da natureza, que pega um motoqueiro desavisado no meio do deserto com uma tempestade de areia. Ou em plena floresta, com uma chuva torrencial. ''Eu e minha mulher já ficamos no meio da Patagônia, sem lugar para dormir'', conta o paranaense João Batista de Lima, de 40 anos. ''Passamos, também, uma noite na Amazônia, sem poder seguir'', diz. E as brigas? Lima sai da armadilha com romantismo. ''As estrelas da noite fazem tudo ficar mais fácil.''
Ele e a companheira, Eliete, já fizeram sete viagens pela América do Sul relatadas no livro ''Nas Trilhas da América do Sul''. Na maior, percorreram 12 mil quilômetros, em 35 dias. O roteiro é bem parecido com o desenvolvido por Guevara e Granado: saíram do Paraná rumo à Argentina, ao Chile e ao Peru. De lá, voltaram para o Brasil pelo Acre, até o Paraná novamente. Gastaram aproximadamente US$ 50 por dia, incluindo o combustível.
''Ficamos em hotéis baratos e às vezes acampamos. Na hora das refeições, preferimos restaurantes de comidas típicas, que são mais baratos'', entrega a dica. Da mesma maneira, o casal percorreu todo o continente americano até o Alasca, aventura que deve render novo livro em breve.
Depois de um dia inteiro sentado numa moto, há quem prefira passar a noite com um pouco mais de conforto e, se possível, um banho quente. Assim foi a viagem de um mês pelo continente sul-americano do bancário Normando Rolim, de 53 anos. Há 7, ele e três amigos resolveram desbravar países como a Colômbia, que o deixou muito bem impressionado. ''As cidades são lindas e a população tem um respeito enorme por sua história'', afirma.
O grupo passou, ainda, por Venezuela, Equador, Peru e Bolívia, de onde retornou para o Brasil. Meio diferente, é verdade. ''Acho que alguma coisa mudou. Numa viagem dessa, você não pode pensar em egoísmo, tem de ceder bastante.''
Lições de coletividade à parte, muita gente resolve pegar a estrada sozinho, como um exercício de controle emocional. ''Você passa a se conhecer muito bem, a ter total domínio sobre si, principalmente em situações difíceis'', diz o veterano Miragaia René Angelino, de 71 anos, autor de três livros sobre o assunto. Por situação difícil, entenda-se, por exemplo, inúmeros assaltos pelo caminho ou passar 22 dias perdido no meio da floresta nas Guianas. Nada que tire o bom humor de Gaia, como ele é conhecido.
''Sempre volto mais feliz, convicto de que o mundo é um lugar maravilhoso e os povos são bons'', conta. ''As pessoas, de qualquer raça, estão sempre prontas para te abrigar em suas casas, não importa que sejam palafitas no meio do Vietnã.'' A cada citação de país, pode-se perceber que Gaia não é um aventureiro qualquer. Com um pouco de bate-papo descobre-se que, a bordo de uma moto, ele já percorreu cerca de cem países, em quase todos os continentes. ''Só falta mesmo a África, que quero fazer ainda este ano'', diz.
Na mais longa aventura pela América do Sul, há 20 anos, Gaia percorreu 45 mil quilômetros. No caminho, aproveitou para exercitar o que parece ser sua especialidade: fazer amizades. ''Gosto de conhecer as culturas por onde passo e respeitar isso. Quero saber como é a forma de pensar e agir daquelas pessoas que, muitas vezes, vivem tão diferente de nós'', afirma. ''E, claro, passo a respeitar cada vez mais essa diversidade.''
Se alguma dúvida em pegar ou não uma moto e sair por aí para desbravar o mundo ainda persistir no interlocutor, Gaia trata de dar a cartada final: ''A aventura é a minha vida, tenho de viver no limite. Para você existir, tem de sonhar. Se não for assim, você simplesmente sobrevive.''


