Em meados dos anos 1980, o cinema brasileiro fazia sucesso com produções voltadas para o público jovem, como "Menino do Rio" e "Bete Balanço", longas que exaltavam a música, esportes radicais, gírias e modismos da época. A televisão precisava de um produto que dialogasse com essa geração, influenciada por videoclipes de banda de rock e carente de um retrato mais próximo de si no vídeo. E sob a encomenda de Daniel Filho, poderoso executivo da Globo na época, uma equipe de redatores formada por Antônio Calmon, Nelson Motta, Euclydes Marinho, Patrícia Travassos, Daniel Más e Christine Nazareth criou a série "Armação Ilimitada", que este mês completa 30 anos de exibição do seu primeiro episódio.
"Até aquele momento, nada semelhante tinha sido feito para a tevê. O resultado foi espetacular. O seriado subverteu a ordem tradicional, a trama psicológica estava em segundo plano. A ação era protagonista", conta Calmon.
Na série, Juba e Lula, de Kadu Moliterno e André di Biase, são dois amigos viciados em esportes radicais que ganham a vida fazendo pequenos "bicos". Juntos, eles fundam a Armação Ilimitada, empresa que presta serviços nada ortodoxos, que vão desde pilotar aviões a trabalhos como dublê em filmes de ação. "Eles estavam sempre preparados para tudo. As gravações eram sempre uma aventura. E o mais interessante desse projeto é que ele representava muito bem o meu estilo de vida. Me sentia 'em casa' na pele do Juba", valoriza Kadu Moliterno.
A escalação dele e de Biase para os personagens não foi em vão. Ambos já tinham contracenado juntos e em personagens semelhantes na trama de "Partido Alto", novela de Aguinaldo Silva e Glória Perez, exibida cerca de um ano antes. "A direção percebeu que a dupla funcionava muito bem e combinava com o estilo de produção que a emissora precisava. É um trabalho muito significativo para mim. Até hoje, as pessoas me param na rua para falar do seriado", entrega André.
No apartamento em que moravam no Rio de Janeiro, Juba e Lula tinham a companhia da destemida Zelda, estagiária de Jornalismo interpretada por Andréa Beltrão. Sem brigas ou grandes dramas, o trio convivia de forma harmoniosa, mesmo com Zelda sempre na dúvida sobre qual dos amigos ela gostaria de namorar de fato. "Ela simbolizava o feminismo dentro de uma série protagonizada por dois caras. Zelda era livre, esperta, fã de Simone de Beauvoir. Naquela época, ela já era uma defensora do poliamor", brinca Andréa.
Para completar essa família nada convencional, o órfão Bacana, de Jonas Torres, se junta à trupe, após ser adotado por Juba e Lula. Precoce e curioso, o personagem teve forte apelo com o público infantil. "O Bacana tinha umas tiradas maravilhosas. Na verdade, acho que era ele quem cuidava dos pais. Era a cabeça mais certinha da série", garante Jonas. O falecido Francisco Milani e Catarina Abdala completavam o elenco central, interpretando o chefe e a melhor amiga de Zelda.

Estética de videoclipe

Abusando da suntuosa natureza do Rio de Janeiro, "Armação Ilimitada" testava o poder de produção da Globo ao ter de gerar belas cenas e alinhar tudo com um rigoroso processo de pós-produção. Além de efeitos especiais, o grande chamariz do seriado era a frenética edição de imagens, respeitando a estética esportiva e de videoclipe idealizada por Daniel Filho e Guel Arraes. "A gente trabalhava com muita criatividade e liberdade, o seriado chegou a brincar com técnicas do cinema mudo, usar os balões dos quadrinhos. Se fosse legal e tivesse a ver com aquele universo, qualquer ideia era bem-vinda", explica Guel.
Ao longo das quatro temporadas, a produção ganhou diversos redatores, teve os "novatos" Paloma Duarte e Caio Junqueira completando o elenco e foi dirigida por nomes como Ignácio Coqueiro e José Lavigne. Após o cancelamento, ainda rendeu o spin-off "Juba & Lula", programa de auditório apresentado por André e Kadu que durou pouco mais de um mês no ar.

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