Aventuras do pensamento
Nelson Sato
De Londrina
Os filósofos existencialistas, que fizeram a cabeça de gerações, voltam ao centro dos debates esta semana com a realização de um ciclo de conferências no Rio de Janeiro
Eles estão de volta. Contrariando seus contumazes coveiros, Sartre e o resto da turma tomarão posse de novo da palavra não ao vivo, mas incorporados em conferências e debates no seminário Os Nexos do Sentido: Os Existencialistas, que a partir de amanhã e até sexta-feira ocupa o auditório do CCBB, no Rio de Janeiro.
Quem até hoje não folheou as mais de 700 páginas de O Ser e o Nada, tem mais um estímulo para espanar as teias de aranha de cima do volume e avançar além do subtítulo desencorajador Ensaio de Ontologia Fenomenológica. O livro, publicado em 1943, é a suma da filosofia existencialista.
Sartre começou a escrevê-lo logo depois de ser liberado de um campo de prisioneiros, de onde voltara convencido da necessidade de se engajar, surpreendendo sua eterna companheira Simone de Beavoir pelo rigor de seu moralismo. A existência precede a essência dizia, na fórmula que se tornou famosa e repetida à exaustão pelos seguidores.
Ele apresentava sua filosofia como uma doutrina da ação, atribuindo ao homem a responsabilidade de imprimir sentido ao vazio de sentido original de sua existência, o que implicava em se engajar em projetos e a se frustrar na medida direta de suas ambições. Ao lado dele, com abordagens distintas, o argelino Albert Camus e o francês Merleau-Ponty dividiam as inquietações do espírito da época.
O primeiro afirmava que o sentimento de absurdo da existência não mergulha o indivíduo na sua negação, mas o situa de novo no mundo. A angústia daria lugar à revolta, a partir da qual renasceria a solidariedade humana. Pouco antes, o alemão Heidegger já tinha atirado um tijolo na tradição filosófica meditando sobre o ser-no-mundo.
Em Paris, onde instalaram seu QG, eles transformaram-se em gurus de toda uma geração acossada pela Segunda Grande Guerra e pela ocupação nazista. Ali, às margens do Sena, era comum vê-los trocando figurinhas nos cafés e nas caves enfumaçadas de Saint-Germain, onde o cool jazz e o bebop rivalizavam no gosto dos ilustres frequentadores com as canções de fossa da cantora Juliette Gréco, a musa de Sartre.
A popularidade dos pensadores cresceu a tal ponto, que logo tomou a forma de uma caricatura, reforçada depois pelo cinema norte-americano. Ficou difícil dissociá-los da imagem de sujeitos de olhares blasé com casacos escuros e cigarros no canto da boca. O grupo existencialista, contudo, não ficou imune aos rachas ideológicos provocados pela guerra fria.
Por causa do engajamento político, Sartre brigou feio com Merleau-Ponty, com quem fundara a revista Les Temps Modernes. Mais tarde, rompeu com Albert Camus depois que este publicou um texto atacando o apoio do amigo à ditadura stalinista na então União Soviética. Neste último caso, a história deu razão ao autor de O Estrangeiro.
Mas a atuação de Sartre, independente das tomadas de posição, permanece como o símbolo imbatível do pensador sem papas na língua que mete o bedelho onde não é chamado. Ele foi o incentivador da filosofia à luz do dia: suas palestras lotavam auditórios e seu apoio a passeatas em Maio de 1968 reforçou a influência do intelectual nos fatos da República.
Em 1960, o filósofo deu as caras no Brasil acompanhado de Simone de Beavoir e não desapontou a audiência. De língua solta, questionou nossas estruturas sociais e políticas, condenou o colonialismo e defendeu a revolução cubana. Na época, o existencialismo já estava em declínio na França, sendo sucedido daí para frente por uma sucessão de modismos intelectuais.
Retomá-lo como farão esta semana no Rio conferecistas do porte de Bento Prado Jr. e Gerd Bornhein pode ser um aviso de que o mal-estar do final do século não encontrou tradutores novos à altura.





