Aventuras do cotidiano
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
O aprendizado da vida pode estar em qualquer situação. Numa viagem à Lua ou numa caminhada até a esquina. A situação não é o principal ingrediente do aprendizado, mas sim a reflexão sobre a situação, a ação do pensamento em ler os acontecimentos, sejam eles internos ou externos, de maneira reflexiva. Com simplicidade, o jornalista Marcelo Coelho passeia por esse contexto em seu segundo livro infanto-juvenil. Minhas Férias lançado pela Editora Companhia das Letrinhas. Conta as memórias de suas férias quando tinha entre sete e doze anos. Aventuras que estariam mais no processo de aprendizado com os acontecimentos do que na adrenalina da aventura, da ação.
As férias de Marcelo Coelho não possuíam nada de surpreendente. Passava algum tempo nas praias do Guarujá ou numa fazenda de parentes. Em ambos lugares não acontecia nada surpreendente. O que deveria ser o período mais interessante do ano, se revelava banal, chato e repetitivo. Mas a tragédia deixou de ser monstruosa quando passou a perceber a dimensão dos detalhes cotidianos.
Na praia, por exemplo, quando um amigo tira o sarro de sua bermuda brega, dizendo que era bermuda de baiano, percebe que o mais importante não era a gozação, mas o fato do amigo ter sido sincero, não um puxa-saco cheio de falsidade. Em outra situação, durante uma tentativa de aventura, compreende que outro amigo esconde seu medo de cobra inventando perigos imaginários. Na verdade seu objetivo não era viver uma aventura, mas comer todo o lanche da empreitada.
Numa estada na fazenda, vê uma cena emblemática: sua tia tirando espinhos dos focinhos dos cachorros que haviam brigado com porcos-espinhos. Após a dolorosa operação os cães se lambuzam alegremente numa bacia de fubá com carne. Nesse mesmo dia uma dúvida o perturba: por que no mundo existem pessoas boas e pessoas ruins? Mais: por que as pessoas boas não vivem mais do que as pessoas ruins? Após algumas artimanhas do pensamento, conclui: O cachorro é como a gente. Que de vez em quando topa com uma coisa estranha um porco-espinho que dói a morte de alguém por exemplo e depois, no dia seguinte, esquece e fica alegre com uma papa de fubá, como se nenhum problema existisse.
Quando conquista a primeira namorada, fica dividido entre um gibi do Super-Homem e o amor da garota. O caso é clássico. A menina pede para recortar um página do gibi. Marcelo é abatido pela dúvida: deixa a garota recortar, numa prova de amor e doação, ou preserva o gibi que adora. Acaba optando pelo Super-Homem e perde a namorada. Alguns meses depois sente falta da garota e o gibi não significa mais nada. Ou seja: No fundo é sempre assim. Quando a gente precisa de uma coisa, essa coisa fica importante. Mas aí é quando a gente não tem a coisa de que precisa. E quando a gente acha que é o maior, quando a gente acha que não precisa de nada, é aí que a gente está precisando e nem sabe disso.
Minhas Férias é um depoimento autobiográfico de um adulto relembrando sua infância, ou melhor, as impressões de sua infância. O narrador apresenta suas experiências de férias infantis através de um aparato mental adulto. Com uma linguagem direta, confidenciando-se com o leitor, apresenta fatos e reflexões sobre eles. Dimensiona os acontecimentos dentro do processo de crescimento do ser humano, dentro do processo de sociabilização.
Minhas Férias de Marcelo Coelho, ilustrações de Myrna Maracajá, Editora Companhia das Letras, 80 páginas, R$ 15,50.





