Até duas semanas atrás os mosqueteiros Rodrigo Santoro, Marcelo Faria, Pedro Vasconcelos e Thierry Figueira desembainhavam suas espadas todas as noites, no Rio de Janeiro, para um auditório superlotado de 450 pessoas que iam aplaudi-los em ‘‘D’Artagnan e os Três Mosqueteiros’’. Hoje, em Curitiba, quando entrarem em cena pela segunda vez - pela platéia - lutando no melhor estilo da capa e espada, estarão sendo vistos por um público de 2 mil pessoas no Guairão.
A temporada que começou ontem se encerra amanhã. Segundo cálculos de Verinha Walflor, a produtora local do espetáculo, nestes três dias cerca de 10.500 espectadores vão ter passado pelas portas do teatro. Pelas contas feitas na ponta do lápis três dias em Curitiba darão aos rapazes exatamente metade dos 20 mil pagantes do Rio, durante quatro meses em cartaz no Teatro Clara Nunes. Mais que sucesso, um fenômeno de bilheteria. Foram abertas duas sessões extras, mas as lotações esgotaram-se rapidamente.
É claro que tamanha procura está diretamente ligada à popularidade dos atores, rapazes bonitos que ganharam popularidade na tela da TV Globo. Mas para eles o sabor especial do espetáculo não está na expectativa das adolescentes em verem de perto seus ídolos. Está na viagem que empreendem juntos - palco e platéia - na aventura de D’Artagnan e seus companheiros.
‘‘É gostoso isso - o pessoal vai despreparado para o teatro e é levado pela história’’, comentou Pedro Vasconcelos à Folha2. ‘‘No final a garota esquece que você é o Rodrigo Santoro e te chama de D’Artagnan’’, exemplifica Santoro, que vive o personagem-título.
‘‘D’Artagnan e os Três Mosqueteiros’’ começou a ser delineado em 1994, entre Vasconcelos e Marcelo Faria. Amigos de nove anos, planejaram ir em busca de uma peça cujo protagonista não fosse apenas um, mas vários. Daí surgiu a idéia do romance de Alexandre Dumas. Com 465 páginas e histórias paralelas acontecendo ao mesmo tempo, foi difícil sintetizar a aventura numa montagem teatral.
O trabalho ficou a cargo dos dois, que decidiram manter a trajetória do jovem interiorano francês cujo sonho era ser um mosqueteiro, e deixar de lado os afluentes que desembocam nesse mesmo caminho. Concluído o projeto, faltava patrocínio. Foram mais dois anos tentando levantar os R$ 60 mil para a produção. Quantia modesta para tudo aquilo que conseguiram. ‘‘Trabalhamos com criatividade’’, diz Pedro.
Por ser um espetáculo de época, levado com requinte, foram necessários 450 metros de finos tecidos para compor as roupas dos 18 atores em cena. Predominam as sedas e veludos nos vestidos volumosos, capas, corpetes. Isso sem contar os cenários retratando Paris do século 17 e a equipe de cinco pessoas que atuam nos bastidores. Ao todo são 23 que começam por Curitiba a turnê nacional.
O cuidado que cerca a montagem tem por reflexo o sucesso, entendem os artistas. Não é uma curtição de caras e bocas que eles levam ao palco, daí o êxito da peça. Se não houvesse substância no trabalho, com certeza o público iria rarear no transcorrer da temporada, argumentam. Aconteceu o contrário - muita gente voltando ao teatro pela qualidade da concepção.
A encenação tem linguagem moderna, ágil, mas a marcação é do teatro tradicional, explica Vasconcelos, que além de atuar também responde pela direção. Ele garante que soube dosar o tradicional com o contemporâneo, sem partir para o experimentalismo. ‘‘Diria que é um feijão com arroz bem temperado, muito gostoso de ser provado.’’
A receita é tão caprichada que inclui até mesmo um realismo que vai além do faz-de-conta. Cada um dos atores tem uma história de vergões e cortes conquistados nas lutas encarniçadas. Houve casos de lascas das espadas voarem no auge das disputas. Um ator trincou um dente. Rodrigo Santoro exibe seis ferimentos na mão esquerda.
Por ser uma arte onde a coreografia mistura-se à vida e à morte, o elenco teve aulas de lutas durante cinco meses com o professor e ator Gaspar Filho. Em cena eles empunham espadas francesas, de aço, réplicas das originais dos idos de 1625, ano em que transcorre o espetáculo.
Juntos desde novembro de 1997 o quarteto acabou se afinando tão bem que criou a Companhia Carioca de Teatro Jovem. Eles costumam dizer que o lema ‘‘um por todos e todos por um’’ de alguma maneira entrou em suas vidas. É uma disposição e uma filosofia, que está distanciada dos tempos atuais.
Esta é a era da Internet, da vida a sós, do aprisionamento. A comunicação se faz através da máquina, as barreiras geográficas são quebradas em segundos, mas não se tem mais a convivência, a aproximação, a amizade. Os quatro mosqueteiros trazem de volta a possibilidade de alimentar amizade. ‘‘Estamos fazendo um resgate’’, orgulha-se Marcelo Faria.
A aventura de agora é trazer o público para ver o que eles estão fazendo no teatro, longe dos estúdios da TV. Continua: ‘‘O teatro dá base para a vida, é uma experiência maravilhosa. Sairmos de uma casa de 450 lugares e enfrentarmos outra de 2 mil é inquietante, uma grande responsabilidade. Ao mesmo tempo uma bagagem preciosa que carregaremos no peito e ninguém vai nos tirar’’.
O gosto pela magia e pela luta que a arte exige de quem dela (e nela) vive, é uma marca do quarteto. Rodrigo Santoro, Marcelo Faria, Thierry Figueira e Pedro Vasconcelos não precisariam panfletar, mas foi isso que fizeram nos portões de alguns colégios de Curitiba. Marcelo e Pedro fizeram muito disso antes de se tornarem populares com o rosto exposto na TV.
Marcelo argumenta que é diferente uma pessoa sair pelas ruas distribuindo papéis informando sobre um espetáculo do próprio ator abordando os passantes, convidando-o a ir para vê-lo em cena. ‘‘Tem um gostinho especial. E também é uma forma do artista se colocar de igual para igual com o público. Estamos todos no mesmo barco’’, finaliza.

mockup