Curitiba - Um porto seguro é o que a maioria das pessoas costuma almejar. Mas a família Schurmann não integra a unanimidade e também não faz parte do senso comum. Há mais de três décadas, eles optaram por um insólito meio de vida: a navegação por rotas nem sempre seguras. Uma dessa viagens - a que reproduziu o roteiro traçado pelo navegador português Fernão Magalhães em 1519 e que mudou a história do planeta - foi transformada em filme. O longa-metragem ''O Mundo em Duas Voltas'' dirigido por David Schurmann revela o périplo dos pais do cineasta, Valfrido e Heloísa Schurmann, e tem estréia nacional na semana que vem.

A rota dos Schurmann envolve duas grandes viagens por mais de 30 países, cruzou três oceanos e quatro continentes. Acompanhou e atualizou o trajeto de Magalhães, que partiu no século 16 numa ousada expedição que levava 267 homens e retornou à Espanha três anos depois, quando ninguém mais se lembrava do séquito, com apenas 18 homens a bordo de uma das naus. Toda o trajeto foi retraçado pela família brasileira durante quatro anos, acompanhado por uma equipe de navegação, de filmagem e pela filha adotiva do casal Schurmann, Kat, que na época tinha 5 anos. A menina morreu no ano passado aos 14 anos.

Agora, sete anos depois do término da viagem dos Schurmann, o cineasta e também navegador David Schurmann reconta essa história em filme. ''O Mundo em Duas Voltas'' não se restringe a um longa de navegação. É também um filme histórico, já que reconta por meio de ilustrações (assinadas pelo francês Laurent Cardon) a incrível batalha de Magalhães. Conforme disse David, é um filme que pode ser observado por diversos tipos de vertentes.

Quem quiser emoção vai encontrar respaldo nas relações familiares e pessoais que o filme aborda, quem quiser aventura vai encontrar nas belas e exóticas imagens e por aí vai. Mas independente disso, o jovem cineasta conseguiu realizar um trabalho completo no seu primeiro longa-metragem. Sobre o projeto e o resultado da mais perigosa aventura da Família Schurmann, o patriarca Vilfredo falou à Folha. Acompanhe os principais trechos da entrevista.

FOLHA2 - A geografia e a história oferecem muitas possibilidades de roteiros igualmente fantásticos. Por que exatamente vocês escolheram a rota feita por Fernão Magalhães?

Vilfredo Schurmann - Quando nós estávamos saindo da África do Sul, na nossa primeira aventura, em 1994, eu tive acesso a um livro sobre a viagem de Fernão Magalhães. Eu achei essa viagem um negócio fabuloso principalmente pela perseverança dele. Sendo um português, ele levou o projeto para o rei de Portugal de achar um outro caminho para as Índias. Ele era coxo. Os caras acharam que ele estava louco e disseram não. Mas ele não desistiu e foi levar a idéia para o Rei da Espanha. Eu achei essa persistência muito bacana, mas também teve outra coisa: é uma rota que passa por lugares frios, quentes, pela Ásia, com toda a filosofia e cultura diferentes, enfim, é uma rota que engloba muitas culturas.



Como foram os preparativos ?

Começamos a estudar o roteiro e imediatamente ligamos para o David, que estava estudando cinema na Nova Zelândia há seis anos. Ele nos avisou que ia terminar o contrato de trabalho e ia fazer a equipe dele, de filmagem, e que nós fizéssemos a nossa equipe de navegação. Nós também enviamos duas jornalistas para a Espanha e Portugal para levantar a história de Magalhães. Eu estive nos Estados Unidos e tive acesso aos manuscritos do italiano que descreveu a rota. Consegui isso através da universidade de Santa Catarina e de um pedido especial da Rede Globo, senão nunca teria acesso a esses documentos.



A idéia da viagem já englobava um longa-metragem ?

Sim. Essa era nossa idéia desde o início, mas todos nos falavam que era muito caro. Eu conversei com o David e ele não abria mão de fazer a filmagem em película. Ele foi muito firme nesse momento. Ms além do filme, também tivemos um projeto educacional. Durante a viagem nós transmitíamos via satélite para escolas do mundo inteiro, ensinando história, geografia. Só nos EUA eram 2,5 crianças acompanhando. Foi uma viagem muito interativa e produtiva também. Ao todo, o David acumulou 100 horas de filmagem e mais de 400 rolos de filme em 16 mm.



Vocês passaram muito tempo planejando a viagem e o documentário. Tudo saiu conforme o esperado?

Não. Você tem o planejamento, mas isso você vai adaptando. Para você ter uma idéia, nós saímos do Brasil com paridade do dólar, em 1997. Quando chegamos na Patagônia, teve uma desvalorização de 30% e nós tivemos que renegociar o contrato com nossos patrocinadores. Naquele momento nós também tínhamos planejado algumas filmagens aéreas que não dava mais para acontecer. Nosso orçamento não permitia mais contratar esse recurso. Eu e o David começamos a discutir, ele dizia que precisava, e eu dizia que não. Nós discutimos tão forte que as pessoas pensam que estamos brigando, mas é nesse momento que surgem as idéias. No meio da nossa ''briga'' por exemplo, surgiu uma pessoa, diretor de uma companhia telefônica que nos deu um suporte lá. Disseram que o que queríamos era uma operação de guerra, tendo que entrar em regiões muito perigosas. Mas mesmo assim, conseguimos apoio. Não nos contentamos com o ''não dá''. Surgem esse momentos de encontrar alternativa para buscar aquilo que a gente queria. A gente focou na idéia de fazer um filme com boas imagens e é o que temos hoje.



A viagem terminou em 2000. E o filme só fica pronto agora, sete anos depois. O que aconteceu nesse meio tempo e por que o filme demorou tanto para ser lançado?

Primeiro quando chegamos tínhamos a estrutura, mas não tínhamos o roteiro. O David começou a fazer o roteiro depois que voltamos. A idéia inicial, por exemplo, era fazer toda a animação que hoje está presente no filme, como uma coisa real. Nós chegamos ir para Europa ver bases para filmagem. Encontramos uma réplica da nau Victória, uma das utilizadas pela expedição do Magalhães. Nós até já tínhamos a locação, uma praia em Ilha Bela, que não tem casa nenhuma. Mas o orçamento foi lá para cima e vimos que não tínhamos condições. Aí o David começou a trabalhar em um outro roteiro e surgiu a idéia da animação. Então primeiro foi o roteiro, depois a captação. Mas estávamos conscientes de que essa demora iria acontecer mesmo. Não é nada anormal para o cinema.

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