Quando se fala em viagem em 4X4 entre pontos da costa brasileira imagina-se que o trajeto será inteiro pelo litoral, diante de praias selvagens, e nem pensar em ver a cara do concreto tão cedo. Não é bem assim. Boa parte do caminho entre Jericoacoara e os Lençóis Maranhenses é feita pelo interior do Ceará, Piauí e Maranhão, em estradas asfaltadas e de terra. Mas isso não tira o sabor de inusitado.
''Esse passeio é o que há de mais legal no Nordeste. Ideal para quem gosta de aventura, de ir andando pelo chão, sentindo a vegetação, conhecendo a história e as pessoas dali. É uma viagem para ter esse tipo de contato'', explica Eduardo Pimenta, de 26 anos, há dois vivendo em Jericoacoara. Ele trocou o ar-condicionado do escritório em São Paulo pelo geladinho ao volante do Land Rover. Criou a Expedição Nordeste, marca que imprimiu em seu veículo, e hoje leva turistas para cima e para baixo.
Pimenta sugere vários percursos no Nordeste, entre eles uma esticada para quem faz o passeio Ceará-Maranhão. ''A pessoa pode conhecer quatro parques nacionais de uma vez só: Jeri, Ubajara (CE), Sete Cidades (PI) e Lençóis Maranhenses.'' Mas ele segue o destino que o viajante quiser. O preço não muda, já que Pimenta cobra por dia R$ 400 (acima de cinco diárias o valor cai para R$ 350). Inclui ele de motorista-guia e o combustível.
Se o seu tempo for curto e o roteiro apenas de um ponto a outro, não há motivo para desanimar. É programação suficiente. Prepare as malas (e o traseiro para o sacolejo) e boa viagem! Ao sair de Jericoacoara, o carro segue pela praia. É delicioso andar sobre a areia olhando o mar pela janela. A paisagem se alonga assim até Mangue Seco, onde nativos movem no braço a balsa que cruza o Rio Guriú. Do outro lado, batizado com o mesmo nome, um lugarejo de pescadores.
A próxima visão são as dunas de Tatajuba, antiga vila soterrada. Esse é um dos passeios realizados por bugueiros de Jeri. Portanto, se você for esticar a viagem até os Lençóis, economize tempo e dinheiro e veja o local na hora de ir embora.
Outra balsa leva até Camocim. De lá, pé na estrada. Pedras gigantes acompanham o caminho perto de Chaval, já na fronteira com o Piauí. A urbana Parnaíba, no Estado vizinho, apresenta suas águas para quem quiser conhecer o Delta. De lá, partem os barcos de turismo e de linha. A parada na cidade também pode servir para abastecer o carro com comida e água. Caso tiver se preparado antes e o Delta for ficar para a próxima vez, nem entre em Parnaíba. Aí, siga para o Maranhão. E olho nos detalhes.
Em Barro Duro, meninos num burrico com balaios e bacia na cabeça para se proteger do sol. A moradora lava roupa no riacho. Entre Tutóia e Paulino Neves, estrada de terra. Casebres de pau-a-pique e porquinhos nas ruas. Caminhões servem de lotação.
Depois de Paulino Neves (antiga Rio Novo), vem a parte mais emocionante do trajeto: atravessar as dunas dos Pequenos Lençóis e chegar à praia. O carro quica e você jura que terminará atolado. Fique tranquilo. Se o motorista conhecer a região, o 4x4 aguenta. Caso vá à tarde, desça no alto de uma duna para ver o início do pôr-do-sol. Aí é seguir como um rio, em direção ao mar. Praias virgens, onde se vêem as cabanas de uns poucos pescadores, levam ao Caburé. Lá é o destino final.
Nem pensar em dormir sua primeira noite nos Lençóis em Barreirinhas, principalmente se o céu estiver aberto. Está bem, o Caburé não tem nada. Não é propriamente uma vila, só um aglomerado de pousadas simples, com o mar de um lado e o Rio Preguiças do outro. Especulam-se até que a água está subindo e que aquele pedaço de areia sumirá com o tempo. Então para que ficar lá? Quando o gerador apagar as luzes, olhe as estrelas e escute a natureza. Você entenderá o porquê de tanta insistência.

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