Aventura e mundos paralelos
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de março de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Arquivo FolhaEm Bússola Dourada, Philip Pullman segue a melhor tradição dos romances juvenisA Bússola Dourada, obra do escritor inglês Philip Pullman, é um clássico romance de aventura com o bem e o mal duelando na palma da mão da fantasia. Lyra, personagem principal, é uma menina criada dentro da Universidade de Oxford mas sua maior diversão é rolar no barro da periferia da cidade. O destino lhe entrega o desafio de colocar em ordem o que a ganância e a prepotência tumultuaram. Nem que para isso, precise enfrentar perigos e desafios em mundos paralelos.
Lançado pela Editora Objetiva, A Bússula Dourada, primeiro volume da trilogia Fronteiras do Universo, ganhou vários prêmios de literatura juvenil e tem sido comparado a outra trilogia, O Senhor dos Anéis, obra do escritor J. R. R. Tolkien. As comparações são pertinentes. As duas obras utilizam, através da fantasia, o arquétipo do herói mapeado pelo mitólogo Joseph Campbell.
Em seus estudos Campbell estabeleceu uma síntese esquemática sobre o arquétipo do herói existente na mitologia das mais variadas culturas em diferentes épocas da história da humanidade. Descobriu um padrão básico que se repete nas histórias de personagens míticos que realizam grandes feitos, grandes e perigosas aventuras, a imagem do herói. Este estudo aparece no livro O Herói de Mil Faces (Editora Cultrix).
Pode-se resumir, a grosso modo, as colocações de Campbell da seguinte forma. O herói mitológico sai de sua casa atraído, ou levado, para o limiar da aventura. Ali encontra forças sombrias que impedem sua passagem. Ele precisa, então, derrotá-las ou fazer um acordo com elas para avançar. Além do limiar, o herói inicia uma jornada através de um mundo de forças desconhecidas. Algumas destas forças o ameaçam fortemente, outras, por outro lado, lhe oferecem ajuda mágica. Quando chega ao âmago de sua jornada mitológica, o herói passa pela suprema provação e obtém sua recompensa. A etapa final é o retorno e a benção que traz consigo restaura o mundo.
Em seu romance, Pullman recria a interessante noção da alma não como algo guardado e escondido no interior do corpo, mas fora. Ela assume a forma de animais de companhia que não conseguem ficar distantes de seus donos. Na infância, esses animais-almas mudam de forma constantemente, num instante podem assumir a forma de um gato, noutro de uma borboleta, logo em seguida um macaco - variando de acordo com estado de espírito do dono. Na idade adulta assumem uma única forma definida caracterizada de acordo com a personalidade da cada pessoa.
Daemon - Philp Pullman utiliza a palavra latina daemon para designar estes animais-almas. Embora a palavra daemon tenha dado origem ao termo demônio - tanto em português como inglês - em latim significa simplesmente espírito, seja ele bom ou mal. Em sua origem grega eram seres divinos e o daemon de cada homem era identificado como vontade divina e, ao mesmo tempo, como destino pessoal.
Se em O Senhor dos Anéis J. R. R. Tolkien cria um outro mundo com a total ausência de seres humanos, em A Bússola Dourara (cujo título original é bem diferente, His Dark Materials 1: Northern Lights) Philp Pullman coloca lado a lado acadêmicos, ciganos, crianças, ursos guerreiros de pesadas armaduras, bruxas voadoras, além de incorporar dados científicos - como a terrível experiência de separar as crianças de seus daemon e utilizar a energia liberada desta fissão.
A Bússola Dourada segue a melhor tradição dos romances juvenis onde a narrativa coloca poderoso o combustível da fantasia no motor da aventura, gira a chave e pisa no acelerador com destino oculto, mágico. Com cada desafio enfrentado e superado pela personagem vibrando na retina do leitor.


