São Paulo, 27 (AE) - Há 30 anos, um grupo de homens, ajudados por uma infra-estrutura imensa e milionária, chegou à Lua. Poucos se esquecem disso. Mas quantos se recordam do vôo solitário de Charles Lindbergh, morto há exatos 25 anos, que, em 1927, a bordo de um aviãozinho monomotor, o "Spirit of Saint Louis", cruzou o Atlântico pela primeira vez num mais pesado do que o ar? O pobre rapaz interiorano de 25 anos saiu de Nova York e 33 horas e meia depois aterrissou em Paris, vencendo o Prêmio Orteig, oferecido por um francês para quem realizasse o feito inimaginável (com certeza um desafio maior do que o da Nasa). "Ele foi o primeiro herói da mídia, transformado em deus da noite para o dia, algo que não desejava e marcou de forma terrível a sua vida", diz Scott Berg, autor de "Lindbergh", biografia definitiva do aviador que será lançada em outubro pela Companhia das Letras.
Festejado pela crítica americana, o livro será transformado em filme dirigido por Steven Spielberg. "Já estamos trabalhando juntos no roteiro e Steven está muito empenhado na sua realização", conta Berg. "Já se pensa em nomes como Brad Pitt, Matt Damon, Ben Affleck ou Tom Hanks para o papel de Lindbergh", revela. Será curioso ver como será mostrada a passagem do "águia Solitária" (seu apelido e título de um filme de Billy Wilder em que James Stewart fez o herói) pelo Brasil, em 1968 (antes, em 1930, ele usou o País como base para um vôo exploratório pelo Atlântico). "Charles adorou a experiência e gostava de contar que fora recebido pelos índios do Tumucumaque com um banquete de carne de macaco; ao ser perguntado pelos nativos se gostara mesmo da iguaria, respondeu: Sim, é quase tão saborosa quanto carne humana."
Lindbergh, um ecologista pioneiro, queria transformar a área em reserva e, para tanto, visitou jornais (esteve na redação de "O Estado de S. Paulo"), políticos, o então presidente Costa e Silva e discursou no Congresso Nacional. Curiosamente, anos mais tarde, o filho de Lindbergh, Scott, veio ao Brasil, onde mora até hoje. Um estudioso do comportamento de uma espécie de macacos, ele se mudou da França, onde realizava seu trabalho, para o País nos anos 70, a fim de fazer suas pesquisas de conservação da vida selvagem com mais tranquilidade. "Meu pai não teve influência nessa decisão, pois não estávamos nos falando naquela época e só mais tarde soube que veio ao Brasil", conta Scott, em sua primeira entrevista no País.
Afinal, o pesquisador teme que seu sobrenome possa incentivar a repetição do tenebroso caso do bebê Lindbergh, o filho primogênito de seu pai, sequestrado em 1932 e encontrado morto meses mais tarde. O evento, a prisão e a execução do sequestrador foram tratados de forma sensacionalista pela imprensa da época, o que fez com que o aviador se isolasse da vida pública. "Minha família não está preparada para enfrentar o risco de um sequestro; vivemos de forma simples e sem grandes reservas de dinheiro", avisa Scott. "Minha mulher, que é de São Paulo, está atenta para a indústria dos sequestros e tomamos todas as precauções possíveis."
Por causa do primeiro casamento do filho e de algumas de suas reservas sobre a Guerra do Vietnã (Scott teria dito que ia mudar de nacionalidade para evitar a convocação), os dois não se falaram por cinco anos. "Isso não deveria ter ocorrido, pois apesar dos fatos - eu não falava a sério sobre a troca de nacionalidade - , nunca fui contrário a sua filosofia de vida e perto de sua morte, quando nos reconciliamos, ambos lamentamos a perda de contato daqueles anos, quando havia tanta coisa para ser compartilhada", lembra Scott. Desencontros faziam parte da vida de Lindbergh.
"Quando cruzou o Atlântico ele era um jovem ingênuo vindo do coração da América, completamente despreparado para a reação da mídia e do público e foi a primeira celebridade vítima de seu sucesso neste século em que o rádio e as comunicações levavam figuras públicas para dentro da vida das pessoas", analisa Berg, o biógrafo. "Lindbergh nunca quis ser herói das massas, não fez o vôo por dinheiro ou fama e prezava muito a sua privacidade; acho que ele foi o precursor dos problemas enfrentados pela princesa Diana", acredita Berg. "Era algo desconfortável para ele, porque não tinha um exemplo anterior em que basear suas atitudes; tímido, reservado, ele sempre sofreu com o assédio da imprensa, que considerava, com algumas exceções
irresponsável e sensacionalista", reforça Scott Lindbergh.
"As pessoas se comportavam como se ele tivesse andado sobre as águas e não as sobrevoado", resume Berg. Bonitão, inteligente, transpirando honestidade e valores americanos, cada frase do aviador era devorada pela legião de fãs, que podia incluir até mesmo o severo Churchill, para quem Lindbergh representava "tudo o que um homem deve ser e tudo o que ele deve fazer". Subitamente, nos anos 30, Jesus foi convertido em Judas. "Os EUA adoram criar ídolos apenas para destrui-los, como a dizer: Se nós fizemos você, podemos pô-lo abaixo, algo terrível", explica Berg. Enquanto o mundo todo se preparava para guerra, Lindbergh juntou-se ao America First, um grupo isolacionista que pregava a paz para os americanos que, afirmava
nada tinham a ver com as disputas européias.
Nazista - Para piorar, em 1935, o aviador foi enviado em visita à Alemanha de Hitler, a fim de conhecer a Luftwaffe. Embora a missão fosse das mais patrióticas - reconhecer o poderio do inimigo eventual - o entusiasmo do técnico Lindbergh pela evolução tecnológica teutônica (no mesmo ano em que foram proclamadas as infames leis raciais de Nuremberg, contra os judeus), não foi bem aceito em seu país. Mais: em 1938, durante um jantar na embaixada americana em Berlim, o herói foi condecorado por Hermann Goering com uma medalha coberta de suásticas e outorgada por ordem do fuhrer. O garoto maravilhoso da América passou a ser xingado de nazista.
Isso não foi tudo. Em 1941, durante um discurso feito numa manifestação do America First em Des Moines, Lindbergh, defendendo a neutralidade ianque, acusou: "Há três grandes grupos que desejam forçar a nossa entrada nessa guerra e são eles os britânicos, os judeus e a administração Roosevelt." A declaração explodiu de vez a sua imagem e transmutou o herói em anti-semita. "Essa é uma questão delicada e antes é preciso definir o que é um anti-semita: se é odiar os judeus, ele não era; se é pensar nos judeus como uma raça à parte, então, certo, ele o era", pondera o biógrafo. Um pecado mortal na nação do melting pot, da mistura orgulhosa das etnias, como os EUA gostavam de se definir naqueles anos.
"Não penso que meu pai era mais racista do que, por exemplo, algum dos muitos governos que colocam cotas na entrada de imigrantes; é preciso lembrar também que judeus e ciganos eram então considerados como uma nação", reitera Scott Lindbergh. "Em seus diários há mais referências a essa questão judaica e creio que o grande engano de Charles era diferenciar judeus e americanos como etnias que não podiam se misturar", revela Berg. Durante uma viagem de navio, ao se deparar com muitos judeus a bordo, o aviador anotou em seu diário: "Serão ainda mais judeus nos EUA além dos muitos que já temos. Alguns judeus adicionam caráter e força a um país, mas em demasia instalam o caos e não paramos de trazê-los para a América."
A administração Roosevelt, pouco interessada em pacifistas com frases dúbias, ajudou a crucificar o seu ex-messias. "Roosevelt pessoalmente deu ordens para que Lindbergh não tivesse participação no esforço de guerra - apenas no fim do conflito ele esteve numa missão aérea e abateu um caça japonês -, em boa parte porque se ressentia da popularidade de Charles, invejava-o", conta o biógrafo. "Atacado por todos os lados, ele não parava de dizer o que pensava; no fundo, Lindbergh era um ingênuo orgulhoso que nunca se retratava de suas convicções", completa. "Até morrer ele insistia na inutilidade da guerra, afirmando que o inimigo real não era o Eixo, mas a URSS."
Recluso - Na década seguinte, o mundo preferiu esquecer de seus feitos anteriores. Que, lembra Scott Berg, não se resumem à travessia, incluindo o aperfeiçoamento de mecanismos fundamentais para a criação do coração artificial, a defesa intensa do programa espacial e a luta pela ecologia. "Ele se transformou em um dos grandes reclusos do século, permanecendo um dos maiores mistérios deste século", analisa o biógrafo. A última onda de simpatia que cercou Lindbergh ligava-se ao trágico sequestro de seu filho. "Foi o grande trauma de sua vida e ele, mal podendo suportar o circo da imprensa, saiu do país com sua família após a execução de Hauptmann para evitar o assédio da mídia."
Para o pesquisador, não há dúvidas de que Hauptmann era realmente o culpado, apesar das dúvidas que se seguiram à sua morte na cadeira elétrica. "Era um mentiroso compulsivo: sua família, até o julgamento, não sabia que ele se chamava Bruno, pois ele escondia esse nome deles", conta. Lindbergh estava igualmente certo da sua culpa. "A viúva, Anne, contou-me que Charles nunca pranteou o filho morto e isso alterou por completo a sua conduta daquele momento em diante."
"Ele se transformou num cético que viajava pelo mundo para avisar as pessoas dos perigos da modernidade tecnológica, que destruía florestas e poluía o meio-ambiente", afirma. "Lindbergh sentia-se responsável por tudo aquilo, pelo que havia feito em prol da aviação e queria reverter o mal, curiosamente após ter sido a estrela ideal das novas tecnologias", observa. "Meu pai convenceu-se de que ganhos científicos eram vazios se não equilibrados com o fenômeno da existência humana", reitera Scott.
Por fim, o homem Lindbergh. "Não era uma pessoa muito fácil, pois tudo em sua vida relacionava-se com o controle de algo: máquinas, pessoas e seu corpo; mas não se pode controlar tudo e, por fim, ao perceber isso, ele ficou mais espiritualizado", avalia Berg. Antes, porém, quando a mulher pediu-lhe para comprar um fogão novo, o "águia Solitária" respondeu-lhe que era preciso adiar "aquela grave decisão", porque "era preciso avaliá-la melhor pelos pontos-de-vista econômico, pessoal e militar". E, caso a guerra com os soviéticos finalmente começasse, a mulher, exigia Lindbergh, deveria lembrar-se de cancelar o dentista das crianças. Até mesmo o seu atestado de óbito foi preenchido com antecedência, apenas sem a data e a causa da morte. Ele morreu em 1974, de câncer, em Maui, para onde se mudou cansado de ser herói e vilão.
"Era um aviador e mecânico brilhante e tinha um toque de poeta, como provam os seus belos livros, um talento que compartilhou com a mulher e, agora, com a filha Reeve", elogia o biógrafo. "Não foi deus ou demônio, só um homem", completa. "Meu pai teve uma vida intrincada e, de certa forma, não evoluída, na qual eu compreendo a sua honestidade obstinada, a coerência obsessiva que queria imprimir às suas crenças, marcas que manteve da infância até a morte: eram virtudes suas, mas que lhe trouxeram muitos problemas", define Scott Lindbergh. Não sem razão, as águias são solitárias.

mockup