AVENTURA - Humoristas põem o pé na estrada
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segunda-feira, 16 de maio de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Cheios de graça, eles partem hoje de Londrina rumo à fama. E a maneira que a dupla de humoristas Zé Capote & Guarda-Chuva escolheu para chegar ''lá'' foi colocar o pé na estrada, literalmente, para chamar a atenção dos meios de comunicação. O ''lá'' é a capital de São Paulo onde pretendem batalhar um lugar num programa de humor em rede nacional. Qual? Qualquer um em que possam contar suas piadas, causos e músicas como ''Xolinha'', feita para um mimosa senhorita. Eis um trecho da pérola: ''Vai lavar a xolinha/ Para ficar cheirosinha/ Lava até onde der/ Lava tudo o que puder/ Não aguento esse chulé/ Vai lavar a ''xola'' do pé''. O ponto de partida da dupla será o Coreto do Calçadão a partir das 9h30, de onde segue para São Paulo, num trajeto estimado em 550 quilômetros que deverão ser percorridos em 45 dias.
Espalhafatosamente vestidos (''uma mistura de Falcão, Tiririca e meio Mamonas Assassinas''), Zé Capote & Guarda-Chuva tomaram a decisão depois de uma constatação nada engraçada. ''Fazemos sucesso em Londrina e região, mas não dá para ganhar dinheiro. O retorno financeiro é pouco'', diz Guarda-Chuva. ''Nosso cachê é baratinho, baratinho'', complementa Zé Capote. Atualmente estão fazendo uma média de 2 a 3 shows, ''e olhe lá'', mas o valor das apresentações não é revelado nem que a vaca tussa.
São pai e filho. Como dupla, Zé Capote (João Carlos Cassemiro, 39 anos) e Guarda-Chuva (Sebastião Honório Cassemiro, 63 anos) existem oficialmente há três anos. A interação é perfeita. Dá-se muitas risadas quando eles contam, por exemplo, a história do peixe ''Pacu'' ou mesmo do tênis incrementado de Guarda-Chuva que, num show, chamou tanto a atenção que a molecada pediu para ver de perto. ''Nosso humor é popular e escrachado. As pessoas riem das nossas piadas, das músicas e até dos gestos'', admite Zé Capote. E por falar em gesto, a ''pescoçada'' (em que parecem dois gansos desengonçados), marca registrada dos humoristas, deve render um concurso em Telêmaco Borba a criançada, pelo jeito, adora.
A dupla tem muitas histórias. A começar pela própria formação. Tudo começou com Guarda-Chuva, muito tempo atrás, quando se uniu a um outro Zé Capote para cantar músicas caipiras, na linha de Alvarenga e Ranchinho. Durou um ano e pouco e ponto final. Guarda-Chuva, ou melhor, Sebastião Cassemiro sempre foi trabalhador autônomo e exerceu diversos ofícios como apresentador de programa sertanejo em rádio por quase 15 anos, ator de teatro mambembe, locutor de rodeio, vendedor de barracas de batidas e até argola sabe aquelas em que se deve ''laçar'' a prenda? O filho sempre o acompanhava nas empreitadas.
Um belo dia, João Carlos arranjou um emprego fixo e tirou toda a graça do pai. ''Meus filhos todos começaram a cuidar da vida e eu passei a me sentir inútil, sozinho. Entrei numa depressão tão brava que fiquei anos sem vir para o centro da cidade'', relembra Sebastião. Casado, ele tem cinco filhos.
Vendo o pai naquela situação, João Carlos resolveu largar o emprego de sete anos numa empresa de confecção para seguir o caminho artístico. Em 2002, surgiu a nova formação da dupla Zé Capote e Guarda-Chuva. ''Acabou a doença. Nunca mais precisei tomar remédio, melhorei, menino! Era saudade de correr o trecho'', diz Sebastião todo cheio de trejeitos e incorporado no personagem.
O incentivo à formação veio do veterano e respeitado apresentador Siqueira Martins, que pediu para gravarem umas duas músicas e, assim, terem um ''gancho'' para levá-los ao programa de televisão que mantém numa emissora local. O apoio fundamental partiu da dupla Preferido e Predileto. Eles abriram braços e estúdios para a gravação de um disco com 11 faixas, lançado em 2003. E aí a coisa deslanchou. ''Passamos a nos apresentar em outros programas de televisão e fazer bastante shows'', lembram.
Hoje, no entanto, pai e filho, ou melhor Zé Capote e Guarda-Chuva vão em busca de um lugar ao sol. Vão a pé, mas um carro de apoio era para ser uma Kombi, mas acabou sendo uma Belina vai levar caixa de som, roupas, colchão, remédios, tênis, cartazes, discos, enfim, tudo o que a dupla precisar. Na direção, vai o filho Joel e o acompanhante Josiel. A família, a princípio, achou a idéia maluca, mas acabou dando apoio.
A cada 20, 30 quilômetros a dupla fará uma parada para descanso e performances em praças públicas, postos de gasolina, enfim onde tiver clima e público em potencial. ''O pessoal de apoio sempre vai chegar antes para avisar a todo mundo que estão vindo dois doidos'', diverte-se Guarda-Chuva. Em São Paulo, o ''lá'' como chamam, alguns conhecidos farão contatos com meios de comunicação.
E lá o bicho vai pegar. Ou vai ou racha? ''Nada disso, chegar lá já é uma vitória'', diz Guarda-Chuva, que passou por um check-up completo antes de colocar o pé estrada. ''O importante, acima de tudo, é a experiência, principalmente para meu filho entender a importância de ir atrás dos sonhos'', diz Zé Capote, que não fez nenhum exame médico. ''Faço o sinal da cruz e vou'', diz. É esperar para ver o que pode render essa aventura.


