Mal os aplausos terminaram e Eugênio Avelino entrou no falsete, acompanhando-se ao violão. A música, ‘‘Kukukaya’’, tornou-se um dos destaques do álbum ‘‘Cantoria’’, que reuniu também Geraldo Azevedo, Elomar e Vital Farias. Avelino, conhecido pelo apelido Xangai, mostrou sua extensão vocal, a melodia ajudou e os agudos sobressaíram. Ao final - a gravação foi feita ao vivo -, arrancou elogios de Farias: ‘‘Você conseguiu, menino’’.
O álbum se tornou uma espécie de guia para quem procurava alternativas à música comercial na década de 80. Por trás da boa participação de Xangai, estava uma compositora paraibana que nunca fez questão de se exibir no circuito da música brasileira. Cátia de França, que evitou os holofotes quando os nordestinos começaram a estourar em São Paulo e Rio de Janeiro, traz características arraigadas ao sertão em ‘‘Avatar’’, um lançamento do selo CPC-Umes.
Quando Fagner, Elba Ramalho e outros cantores e compositores desceram para o Sudeste, Cátia foi junto. Mas não se adaptou à região. Voltou para a Paraíba e fez vários shows, ganhando apoio de amigos como Xangai e Chico César.
Entre as qualidades de ‘‘Avatar’’, destaca-se a falta de perspectiva comercial. Cátia de França não se preocupa em agradar ao mercado, sendo incisiva com sua voz grave e econômica. As letras trazem uma visão própria do sertanejo e sua relação com a natureza, associada a um misticismo com tons apocalípticos.
No disco, ‘‘Kukukaya’’ ganha uma versão diferente das que Xangai protagonizou - ele também gravou a música no álbum ‘‘Comeno com Coentro’’. Os agudos acrobáticos foram substituídos por um sóbrio grave. A gravação ressaltou a letra, que mistura um misticismo de sortilégios que inclui jogos, nascimento e morte.
O álbum ressalta um trabalho discreto e consistente. Entre os convidados, estão Chico César, que aparece em ‘‘Coito das Araras’’; Xangai, que coloca a voz em ‘‘Antoninha me Leva’’ e ‘‘Coisas do Campo’’; e o competente Quinteto da Paraíba, que se destacou na trilha sonora de ‘‘Central do Brasil’’, em ‘‘Ponta do Seixas’’. A sonoridade do Quinteto, formado por violinos, viola, violoncelo e contrabaixo, ressalta o tempero agreste da compositora.
No repertório, três músicas foram criadas em cima de poemas de Manoel de Barros: ‘‘Rogaciano’’, ‘‘Antoninha me Leva’’ e ‘‘Apuleio’’. Em ‘‘Avatar’’, a veia nordestina pulsa com toques de cantador. O disco tem distribuição nacional.

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