'Avatar 2:" sobra técnica, falta paixão no filme em cartaz
Falta o equilíbrio entre o espetáculo de contar histórias e o que privilegia o impacto visual
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
Falta o equilíbrio entre o espetáculo de contar histórias e o que privilegia o impacto visual
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 
Ignoro se o diretor James Cameron se vê como o novo D. W. Griffith – o pioneiro cineasta americano que, no início do século XX, praticamente experimentou e inventou a linguagem cinematográfica, manipulando formas de espaço e tempo em muitas outras
coisas –, querendo ser o herdeiro e reinventor de um cinema de origens que explorava acima de tudo o prazer visual, deixando de lado qualquer material que privilegiasse um conteúdo de ideias.
Treze anos atrás, aquele primeiro “Avatar” (2009), e por extensão esta sequela, “Avatar: O Caminho da Água”, hoje em exibição nas telas planetárias, levantam, nesse sentido, uma questão tão antiga quanto a própria existência (e essência) do cinema: o equilíbrio entre o espetáculo que nasceu para contar histórias e aquele que se entende como uma arte de impacto perceptivo.
Este equilíbrio o diretor parece ter abandonado completamente, deixando a história em segundo plano para focar nos aspectos visuais e com as possibilidades técnicas do meio. Cameron sempre reconheceu que sua forma de contar histórias passa pela
simplicidade. Ele não é um escritor de personagens com demasias, mas sim de mensagens diretas e imutáveis. Ainda assim, às vezes é bom deixar-se flutuar um pouco – não as três horas e quinze minutos que dura o filme, puro excesso – neste universo de
inocente fantasia edênica onde encontrar a felicidade é tão fácil, mesmo que à saída do cinema o espectador saiba que está carregando uma pseudo lição de moral.
Hoje parecem estar todos em busca de contar sua longa e lucrativa saga. E James Cameron quer sua própria “Guerra nas Estrelas”, sua luta do bem contra o mal, suas naves espaciais, suas viagens interplanetárias, suas criaturas cuidadosamente projetadas, suas paisagens impossíveis. Treze anos após o lançamento de “Avatar”, que permanece como o filme de maior bilheteria da história – quase 3 bilhões de dólares – e que marcou um passo além nos limites da arte das imagens geradas por computador, Cameron revive o planeta Pandora e seus habitantes, os Navi, ciente de que a galinha dos ovos de ouro tem muitas gemas para distribuir. Para ele e para o cinema mais industrial parece principalmente uma questão de números, contagiados pelo espírito do Vale do Silício: mais longos, mais caros, mais megalomaníacos e... igualmente enfadonhos. Porque “Avatar 2: O Sentido da Água”, se por um lado sabe como ser uma festa para os olhos (magnífico o uso do 3D), principalmente as cenas marinhas, que simulam um mergulho por entre a fauna das águas caribenhas, aparentemente tão avassaladora, por outro é um sedativo para a alma.
Como numa espécie de “Matrix” hippie, Cameron antecipou a moda do metaverso ao criar essa realidade de avatares. Mas em vez de apostar numa utopia futurista de máquinas sofisticadas, preferiu um regresso à Idade da Pedra com uma fantasia ecológica em que os personagens, embora saibam manejar as mais avançadas tecnologias, optaram por um modo de vida rústico e sustentável, de casas na árvore e veículos automotores. Os menores, ao contrário das crianças urbanas, gostam de cheirar as flores e brincar com animais potencialmente mortais com os quais convivem em paz e harmonia.
A ideia de Cameron sobre o Éden é bastante simples, como uma história infantil, e é a retórica que ele usará na maior parte do filme, para que o público mais jovem possa seguir a trama e se divertir com o entorno da beleza da paisagem e o bestiário.


