Avancini volta à Globo e dirige minissérie de Dias Gomes e Ferreira Gullar sobre Vargas
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segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Júlio Gama 
São paulo, 29 (AE) - O diretor Walter Avancini entrou há poucos meses pela primeira vez no Projac, onde se concentram os estúdios da Rede Globo, em Jacarepaguá, no Rio, e assustou-se com a grandiosidade daquela cidade cenográfica que conhecera apenas no papel, ainda projeto, uma década atrás. "Parece que dormi durante nove anos para acordar nesse mundo novo", diz. Nove anos foi o tempo que Avancini passou fora da emissora, para onde voltou em abril para dirigir a minissérie "Vargas, uma Tragédia Brasileira" com o início das gravações previsto para o fim do ano.
"Vargas", sobre os últimos dias do presidente Getúlio Vargas, estava prevista para ser gravada a partir de agosto, mas dois fatores adiaram sua produção: o alto custo por conta das reconstituições de cenários dos anos 50, em que se passa a trama
e as semelhanças do tema com a minissérie "Agosto", baseada no romance de Rubem Fonseca, que a emissora exibiu em 1993. No lugar de "Vargas", a Globo começou a produzir a minissérie "Terra Prometida", de Maria Adelaide Amaral, com direção de Denise Saraceni.
"Vargas" foi escrita originalmente por Dias Gomes e Ferreira Gullar em 1982. Há poucos meses, a pedido da direção da Globo, Gomes havia começado a atualizar a história, com linguagem realista e baseada em personagens e fatos históricos. Com a morte do dramaturgo, há um mês e meio, Gullar assumiu a adaptação da trama junto com Marcílio Marques. A nova versão da minissérie será reduzida de 12 para 8 capítulos, segundo Gullar. O escritor tem três semanas para entregar os capítulos. O desafio dos adaptadores é evitar as semelhanças entre "Vargas" e "Agosto" mantendo os principais fatos históricos, como o atentado na Rua Toneleros, em Copacabana, que matou o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, a 5 de agosto de 1954, e o suicídio do presidente, no dia 24 do mesmo mês. Tragédia inevitável - "Não faz sentido exibir uma série com muitos pontos idênticos à anterior", afirma Gullar. Com a nova adaptação, o escritor espera dar um passo à frente na compreensão da personalidade do presidente. "Sem abandonar o tema central, vamos tentar mostrar quem era aquele homem e por que aquela tragédia foi inevitável", adianta o autor. Se em "Agosto" apresentou-se os fatos em si, agora Gullar pretende fazer uma reflexão sobre os motivos que levaram Vargas a suicidar-se com um tiro no coração.
"Os últimos dias de Getúlio não podem ser desprezados numa série", continua Gullar. "Toda a crise que conduz ao suicídio será mostrada porque é o momento que revela a personalidade de um dos poucos personagens trágicos da história brasileira". O escritor diz que a nova versão da série não está visando a redução de custos, mas isso ocorrerá porque serão cortadas cenas que exigiriam cenários grandiosos e excessivas reconstituições de época. Novo desafio - Vargas será um desafio para Avancini, um diretor que se mostrou genial na realização de alguns dos maiores clássicos da TV brasileira, como as séries "Grande Sertão: Veredas", adaptação da obra de Guimarães Rosa, com Bruna Lombardi, "Morte e Vida Severina", adaptação da obra de João Cabral de Melo Neto e a novela "Gabriela", que revelou para o mundo a sensualidade de Sônia Braga. A questão é como manter a qualidade que se espera das minisséries da Globo e, ao mesmo tempo, conseguir bons índices de audiência. "Acredito que conseguirei criar um clima dramático como o tema exige e para isso vou contar com tramas paralelas que prendem a atenção do telespectador sem sair do universo histórico", afirma o diretor.
Avancini é um diretor que persegue incansavelmente a perfeição, a realização ideal, o que diz nunca ter conseguido. Chegou perto, admite, por duas vezes, com "Grande Sertão: Veredas" (1985) e "Morte e Vida Severina" (1981), que considera seus melhores trabalhos na TV. Com "Morte e Vida Severina", Avancini inovou realizando as primeiras gravações externas por conta da chegada dos equipamentos portáteis. E os piores trabalhos? "A novela Brasileiros e Brasileiras", exibida em 1990 pelo SBT e "Brida" que foi interrompida no meio, no segundo semestre do ano passado, por falta de dinheiro da Manchete".
A passagem de Avancini pela TV Manchete é exemplo do que se sabe há tempo: televisão é trabalho em equipe e, por melhor que seja o diretor, ele vai naufragar se não lhe assegurarem uma produção decente. Avancini deixou a direção geral da TV Educativa, no Rio, e chegou à Manchete em 1995 para socorrer "Tocaia Grande", adaptação da obra de Jorge Amado que o diretor Régis Cardoso não conseguira segurar. Em seguida emendou a direção de "Xica da Silva", "Mandacaru" e, finalmente, "Brida", baseada no livro do mago Paulo Coelho.
"A Manchete tinha a novela e mais nada e é muito difícil conquistar uma audiência boa baseada numa programação dependente de jogadas de marketing", avalia Avancicni. O diretor chegou a convidar a estrela pornô italiana Cicciolina para o elenco de "Xica da Silva". Também convidou a modelo-viúva-atriz-apresentadora Adriane Galisteu parra banhar-se de seios de fora na mesma novela. Chegou a registrar piques de 17 pontos no ibope. "As críticas que recebi dos nus era apenas preconceito". O diretor diz que sempre teve consciência dos problemas nas produções, mas era o melhor que podia fazer com os recursos que tinha. "No balanço final, fiquei satisfeito", avalia.
Para Avancini, a corrida desesperada por índices de ibope é o reflexo do momento que vive o País. "O Brasil está contaminado pelo vírus do imediatismo", afirma. "É quase uma cultura essa necessidade de exercitar apenas o epidérmico". Por tratar-se de um veículo instantâneo em sua essência, a TV aparece como o símbolo maior da superficialidade a que se refere o diretor. Crítica feroz - Os atores de TV já foram alvo de sua crítica feroz. "A TV dá a possibilidade dessa turma badalar muito", disse o diretor há 20 anos. "Eles acabam não trabalhando como deveriam, exercitam apenas o superficial e todos os trabalhos saem iguais". Em duas décadas não mudou muito e o diretor diz que a busca do resultado imediato por boa parte dos atores não lhes permite sedimentar a carreira. "Estão sempre correndo atrás de resultados para ontem", diz.
Em meados dos anos 70, durante as gravações da novela "Gabriela", corria a informação de que Sônia Braga teria pedido para deixar a novela logo nos primeiros dias de gravação. "Avancini tem fama de carrasco, exige muito dos atores e costuma gritar com o elenco quando o resultado de uma cena não corresponde a suas expectativas", escreveu um crítico a seu respeito, em 1975. O diretor diz que não é bem assim. "Os inimigos fazem mais barulho do que os amigos", explica. "Aqueles que gostam do meu processo de trabalho estão sempre comigo e são grandes atores".
Avancini começou em 1943 nas Emissoras Associadas, como ator das radionovelas e mais tarde atuaria em teatro (esteve no elenco de O Diário de Anne Frank). Estreou como diretor teatral em 1966 com a peça "A Infidelidade ao Alcance de Todos" e dirigiu outros tantos espetáculos até "A Mulher Integral", de 1976. No início dos anos 70 já era considerado o melhor diretor de TV do País. Estreou na direção de cinema em 89, com "Boca de Ouro", inspirado na peça de Nelson Rodrigues.
No início dos anos 90, Avancini mudou-se para Portugal, seguindo o caminho de roteiristas brasileiros que começavam a ser procurados pelos lusos, como Doc Comparato e Mário Prata e de atores, como Cristiane Torloni e Joana Fomm. Criou a Avancini Produção Audiovisual S/A e realizou trabalhos para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), entre eles um telefilme com Bruna Lombardi e uma série sobre os 500 anos da assinatura do Tratado de Tordesilhas.
Desde o início de sua carreira, Avancini diz que se preocupa em usar a TV para transmitir um conceito artístico ao telespectador e não tornar-se apenas um manipulador. "A maioria dos brasileiros tem na TV a única possibilidade de contato com a arte", diz o diretor. Numa entrevista em 1979, ele afirmava que o problema da dramaturgia da TV brasileira estava na falta de conteúdo. "Temos uma produção requintada que recria uma realidade glamourosa, mas do que vale isso se não mostramos a realidade do telespectador?", perguntava.
Avancini volta à Globo e encontra uma emissora sem o monopólio da audiência de outrora. Mas volta confiante. "A situação atual é nova e estimulante enquanto o monopólio pode levar à acomodação", finaliza.


