Autran encarna um velho rabujento em "O Enfermeiro"
Fortaleza, 18 (AE) - Um velho rabujento, meio infantil e no fundo engraçado. É como o ator Paulo Autran define seu personagem, o temível coronel Filisberto, de "O Enfermeiro", média-metragem dirigido por Mauro Faria que foi apresentado fora de concurso no 9.º Cine Ceará. O filme é adaptado do conto homônimo de Machado de Assis e traz a história de um enfermo nada imaginário ("sua doença é um rosário delas...", narra Machado), porém temível. Filisberto atormentara cada um dos enfermeiros que tiveram a missão de tomar conta dele e não tem planos diferentes para o recém-chegado Procópio (Matheus Nachtergaele).
"Tive enorme prazer em fazer esse filme", disse Autran em entrevista à Agencia Estado. "É uma história forte, a direção muito boa e contracenei com um colega ótimo e em grande fase de carreira, o Matheus". De fato, o média-metragem, dirigido de maneira sóbria por Faria, tem na atuação da dupla seu ponto forte. Autran, em particular, empresta densidade espetacular àquele velho chato e agressivo criado pelo gênio de Machado de Assis.
Densidade devidamente temperada pelo senso de humor e experiência de quem vai completar em dezembro 50 anos de palco. "Senso de humor é fundamental e anda muito em falta tanto no cinema quanto na TV brasileira", diz. "O Enfermeiro" é um típico relato machadiano. Humano, porém irônico e distanciado, trabalha com a imperfeição ética dos personagens que são, claro, representantes típicos da espécie. O ceticismo de Machado levava-o a avaliar objetivamente a condição moral de seus semelhantes.
Não se iludia quanto a eles e nem queria enganar o leitor. Ao mesmo tempo, jamais recaiu nesse contrário idiota da credulidade que é o cinismo. Sabia que o ser humano dificilmente pode ser descrito como bom ou mau em termos excludentes. Isso é coisa de cinema americano, feito para adolescentes tardios ou adultos infantis. Desse modo, o velho intratável revela facetas inesperadas, como sua surpreendente imaturidade. Faz do enfermeiro a quem despreza seu herdeiro universal, o que surpreende a todos, sobretudo o beneficiário.
Procópio também não é um tipo nada simples. Carrega a consciência dividida entre o apego ao conforto material e o tormento por um crime que não sabe se cometeu. Essa situação de ambiguidade é boa demais, em termos literários. Transposta para a tela, funciona perfeitamente. Sem sair do arroz com feijão cinematográfico, Faria deixa os atores trabalharem em paz e fazer o que a profissão deles exige: representar pelo público (e não para o público) os impasses da condição humana.
Paulo Autran é um profissional exigente. Quando não gosta de um trabalho que fez vai logo dizendo. Detesta, por exemplo, o episódio que interpretou em "Felicidade É...", dirigido por Cecílio Neto. Portanto", merece credibilidade quando julga "O Enfermeiro um dos seus melhores filmes. Autran não tem uma filmografia muito numerosa. Quando lhe pedem para enumerar seus favoritos, ele não hesita e cita poucos títulos: "Terra em Transe", de Gláuber Rocha; "O País dos Tenentes", de João Batista de Andrade; "O Enfermeiro" e "Vertigens", da francesa Catherine Laurent.
Naturalmente, o clássico de Gláuber Rocha ocupa lugar especial em seu panteão. "Terra em Transe é muito atual e, a cada vez que o revejo, gosto mais da interpretação da Glauce Rocha, que tende a ser um pouco esquecida pela imprensa especializada", afirma o ator. Autran tem ótimas recordações do trabalho com Gláuber. Diz que, antes do início da rodagem do filme, ele estava fazendo a peça "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes, dirigida por Flávio Rangel.
Gláuber ia ao teatro todas as noites para observar o trabalho do ator. Chegava a perturbar público e elenco, deitando-se no chão e usando as mãos para fazer um enquadramento de câmera imaginário para Autran. Finalmente o convite veio e foi aceito na hora. "Era uma figura gentilíssima, que chegava até a incomodar com tanta cortesia", recorda-se Autran. A cada intervalo na filmagem de "Terra em Transe" vinha alguém oferecendo água ou cafezinho para o ator. Cansado de tanta deferência, Autran procurou Gláuber e disse-lhe: "Olhe, já estou meio cansado de ser tratado como uma prima-dona do cinema mudo". Os dois riram e puseram-se de acordo. Cessaram os cafezinhos especiais para o ator já famoso.
Autran explica que a concepção de Gláuber para "Terra em Transe" era avançadíssima e, de certa forma, repetia o procedimento de Nélson Rodrigues em "Vestido de Noiva", com os personagens circulando por vários patamares de realidade. Há um primeiro nível realista, mas depois o personagem de Autran (Porfírio Diaz) reaparece na memória de Paulo Martins (Jardel Filho) e depois na alucinação dele. Por isso, a interpretação se vai tornando cada vez mais over. "E o Gláuber, por trás da câmera, pedia: Mais, mais!, embora eu já estivesse muitos tons acima", lembra Autran, dando risada. (L.Z.O.)





