Autores londrinenses oferecem literatura nua, crua e necessária
O caótico e sangrento cotidiano urbano, por L.R. Silva, e uma República privatizada, de João Fernando de Lima Parra, são lançamentos críticos e afiados
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 2026
O caótico e sangrento cotidiano urbano, por L.R. Silva, e uma República privatizada, de João Fernando de Lima Parra, são lançamentos críticos e afiados

Obras recentes de autores londrinenses oferecem ao leitor pontos de vista sobre contextos sociais e políticos em minúcias. Ficção, realidade e liberdade criativa conduzem o deleite. Em “Cidade de Mil Cores”, L. R. Silva, as histórias não são bonitas, não falam de virtude ou moral. "Muitas são traumáticas, revelam o lado violento, irracional e inconsequente das pessoas. Elas chocam, num certo sentido", adverte o autor que tem como referência literária a escrita de Rubem Fonseca. "Crua, violenta e rápida. Foi com ele que percebi a brutalidade das relações humanas quando inseridas em corrupção, desigualdade social e hipocrisia de elite, por exemplo. Ele escancara a violência como um aspecto que permeia todos os estratos sociais", expõe.
O autor norte-americano Ray Bradbury também fez L. R. Silva ver a literatura sob um outro ângulo. "Com uma escrita que prioriza a emoção e a mensagem em vez do rigor explicativo da ficção científica tradicional. Quando o li pela primeira vez, foi um divisor de águas na minha literatura e passei a usar pessoas comuns em histórias extraordinárias e sobre-humanas, deixando de lado a ideia de heróis moldados para serem perfeitos.
O título “Cidade de Mil Cores” teve origem num trecho de "Fahrenheit 451", quando Montag, o bombeiro que queima livros, está conversando com Granger, um dos homens que se apresentam como biblioteca humana. A obra se divide em contos que narram momentos pontuais da vida de cada personagem. Situações que se colocam, quase sempre não por vontade própria, na vida da pessoa e ela se vê obrigada a agir. Só que essas decisões para interromper um ciclo de violência, por exemplo, são escolhas igualmente violentas, e isso faz o leitor refletir se a pessoa errou de fato, ou se agiu certo, se existe violência justificável ou não, no fim das contas.

"Gosto de estar em companhia de outros autores, igualmente grandes, como Maupassant, Rachel de Queiroz, e Joseph Conrad e considero que qualquer cidade pode se encaixar no nome de meu livro, pois são temas pesados como violência doméstica, falsa moral religiosa, abuso infantil, fé cega, crianças com acesso a drogas, corrupção policial, vingança, crime, mas também determinação e sobrevivência", afirma.
Com publicações feitas desde meados dos anos 2000, L.R Silva é autor de "Esta é a Guerra do Mundo" para o Kindle. "Tenho histórias circulando em coletâneas, escrever e publicar 'Cidade de Mil Cores' é realização de um sonho e também um exercício de sanidade", revela.
Uma de suas personagens de L.R. Silva é Helena. "Teria passado um dia, muitos dias, uma semana? Quanto tempo? Acordou, ainda no colchão, deitada com a cabeça colada ao chão frio, algo não fazia sentido. Uma insistente sensação de corpo anestesiado pairava sobre ela, como se algo a impedisse de se mexer ou falar. Era para ter muito sangue naquele colchão, no piso desgastado, na parede atrás dela, onde o tiro havia feito um buraco. Balbuciava uma ladainha ininteligível. Um rato passou por cima de seu corpo, certamente atraído pelo cheiro da morte. Certamente. Deslizou receoso até o pulso e começou a roer, num instante que pareceu durar uma eternidade. Helena sentiu cócegas. “Mas que merda é...”, pensou na narrativa.
O BRASIL PRIVATIZADO
No recém-lançado "Brasil S/A: História de uma República Privatizada", Editora Grupo Multifoco, o escritor e sociólogo João Fernando de Lima Parra, autor de ‘Milicia.com’ , lança thriller distópico sobre um Brasil 100% privatizado. A obra transporta o leitor para um futuro próximo, em 2045, onde a República Federativa do Brasil foi substituída pela República Tecnocrática Brasileira, uma nação 100% privada, gerida coma frieza de uma planilha de resultados.
Na trama, a palavra “política” foi banida, qualificada como “ruído” que atrapalha a eficiência. As decisões são tomadas pelo “Supremo Técnico”, um ex-apresentador de TV que ascendeu ao poder absoluto ao transformar uma rebelião prisional em um reality show de sucesso global: os “Jogos Meritocráticos Correcionais”.
Nesse novo Brasil, tudo é um ativo, desde o Palácio do Planalto, agora rebatizado como “Palácio Oracle do Planalto”, até a vida humana, cujo valor é medido pelo seupotencial de gerar receita. O estopim da narrativa ocorre quando vinte funcionários da agência de publicidade MC&SCAFF são sequestrados durante um treinamento corporativo.

O crime deles? Utilizar uma linguagem “ideologicamente nociva” e “politicamente correta” em suas campanhas, um “bug” no sistema que precisa ser depurado. Como punição e exemplo, eles são forçados a participar de uma edição piloto e secreta dos Jogos Meritocráticos, uma batalha de todos contra todos em um complexo industrial abandonado, onde o único vencedor é o último a ficar de pé. “Brasil S/A” é mais do que uma história de ação e sobrevivência. É uma crítica afiada ao capitalismo, à cultura da meritocracia tóxica, à vigilância em massa e à desumanização em nome da eficiência.
A obra expande o universo temático do livro de estreia do autor, elevando a crítica do nível de uma única empresa para a escala de uma nação inteira. Com uma narrativa ágil que lembra clássicos como Battle Royale e a acidez de séries como BlackMirror, Parra constrói um universo assustadoramente plausível. “Em'Milícia.com', a questão era como pessoas comuns podem se corromper em nome dosucesso de uma empresa. Em 'Brasil S/A', eu quis ampliar essa lente: o que acontece quando a própria nação é gerenciada como uma grande e impiedosa corporação, e a corrupção se torna a própria política de estado?”, comenta Parra.
Com personagens complexos e multifacetados — de redatores idealistas a executivos impiedosos, cada um com suas próprias habilidades e demônios — o livro força o leitor a se perguntar: Em uma arena onde a única regra é matar ou morrer, quem você se tornaria?
SERVIÇO

“Cidade de Mil Cores”
Autor: L. R. Silva - @l_r_silva
Editora Caravana/ 2026
112 páginas
Preço: R$ 70,00
Mais informações https://caravanagrupoeditorial.com/
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"Brasil S/A: História de uma República Privatizada"
Autor: João Fernando de Lima Parra - @joaofernando19
Editora: Grupo Multifoco/ 2026
256 páginas
Preço: R$ 74,90 reais
Mais informações: https://www.editoramultifoco.com.br/


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.


