Autor premiado faz palestra na Puc
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segunda-feira, 31 de maio de 1999
Zeca Corrêa Leite 
A violência de um assassinato respinga em quatro pessoas: uma está no Colorado, outra no Rio de Janeiro, uma terceira em São Paulo e a última em Nova York. A morte acontece no dia 15 de julho de 1964, mas 40 anos depois ela continua a palpitar nos personagens. Os caminhos intrigantes dessa história estão nas páginas de Cabra-Cega, editado pela Relume Dumará, que deu ao escritor Carlos Nascimento o Prêmio Jabuti de melhor livro do ano de 1999.
Nascimento encontra-se com os leitores de Curitiba nesta terça-feira, às 20h30, na PUC (auditório Alceu Amoroso Lima, bloco de Ciências Humanas). Nesse horário tem início uma palestra, seguida por sessão de autógrafos.
Será uma oportunidade ao público de conhecer e discutir com o autor não só esta obra como A Casa da Palma - também da Relume Dumará -, seu primeiro romance lançado em 1995, que foi não só uma revelação para a literatura brasileira, como também na Europa. Traduzido para a Alemanha, sob o título Das Palmenhaus, já vendeu 10 mil exemplares.
O autor usa da alegoria para falar do tempo, da vertigem em que se transformou este final de século, do avanço tecnológico e das comunicações que alteraram os sistemas até então vigentes. A informação está no ar, e com ela a influência no pensamento, no comportamento, na forma de agir. Enfim esta é uma época em que pela primeira vez o ser humano passa a consumir mais lazer do que necessidades básicas, constata Silva.
Há quase um descompasso do homem consigo mesmo, suas origens, sua raça e neste cenário a literatura não passaria incólume. Ela está no cenário, e sofre as tendências da época, como ressalta o escritor:
- A própria forma do romance é contaminada pela multiplicidade atual das formas de comunicação, através dos títulos de capítulos e epígrafes extraídos de músicas populares, livros de filosofia, ciência, ensaios, livros didáticos, folclore infantil, cartas pessoais, coletâneas religiosas, documentos administrativos e tecno-burocráticos. slogans, frases de filmes comerciais, entrevistas em revistas populares, material jornalístico.
Tudo isto não é uma escolha estética do autor, mas uma adequação da forma: uma adequação do estilo da obra ao estilo de uma época, continua Silva. É o que ele chama de organicidade da obra.
Nas quase 250 páginas de Cabra-Cega os personagens que trafegam por suas linhas sofrem esse desvario das novidades do final do milênio, tendo a aguda consciência da passagem do tempo. O que eles fazem é tirar a venda tradicional do jogo da cabra-cega, para colocar outra - quanto mais vêem, menos enxergam. Desorientados, sabem que o século XXI já começou, mas suas expectativas são frustradas.
Machado de AssisCarlos Nascimento Silva, 62, mineiro, foi criado no Rio de Janeiro. Mestre em literatura brasileira e professor universitário aposentado, por toda vida carregou o gosto pelas letras. Aos 14 anos de idade começou a produzir textos - eram pequenos contos, crônicas, poemas.
Apaixonado por Machado de Assis, Leon Tolstoi, Thomas Mann e Guimarães Rosa aos poucos acabou por criar mecanismos para fugir da escola e passar o tempo lendo. Durante meses devorou livros, devidamente escondido na biblioteca da avó. O problema foi ter repetido de ano no colégio.


