Autor fez pesquisa com textos jornalísticos
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sábado, 10 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
Francisco S. Borba é linguista especializado em dicionários e autor de diversas obras sobre a língua portuguesa, entre elas, ''Gramática de Valências'' (Editora Ática). Possui licenciatura em em Letras Neolatinas pela USP e em Linguística Geral pela Universidade de Paris. Atualmente é pesquisador do CNPq e professor e orientador do curso de pós-graduação em Linguística e Língua Portuguesa da FCL-Unesp, Araraquara (SP).
No início dos anos 90, Francisco S. Borba iniciou a montagem do Corpus de Araraquara, um dos mais importantes bancos de dados de língua escrita no país, com aproximadamente 200 milhões de ocorrências de palavras em textos de literatura romanesca, dramática, técnica, oratória e, predominantemente, jornalística. A Folha2 conversou, por telefone, com o autor. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual a diferença entre os dicionários Aurélio (lançado em 1989), Houaiss (lançado em setembro de 2001) e o Dicionário de Usos do Português do Brasil (DUP)?
O DUP apresenta como a língua está sendo usada atualmente. Quem trabalha com tradução, por exemplo, pode encontrar no DUP várias possibilidades de uso da palavra. Além disso, há a regência verbal que o dicionário orienta. O DUP documenta o uso de cada verbete, cada acepção, buscando o sentido na frase. Esse dicionário procura agilizar o uso escrito. Há predominância absoluta da linguagem do ponto de vista da língua escrita.
Quanto tempo o senhor demorou para fazer o dicionário?
Demorei 8 anos e trabalhei com uma equipe de cinco colaboradores.
Como é fazer um dicionário?
Fazer um dicionário é um trabalho braçal. São três etapas principais: a colheita de dados, o arrolamento e a interpretação. Para se fazer um dicionário é preciso recolher o sentido de cada palavra no texto, conferir com o que está registrado em outros dicionários, identificar os sentidos contextuais. O rastreamento nos textos é uma etapa muito demorada. É preciso também ter boa memória. No DUP foram utilizadas mais de 140 mil frases, escolhidas entre os milhões de textos jornalísticos.
Você usou 70 milhões de ocorrências de palavras retirados de textos jornalísticos. O vocabulário jornalístico é restrito como se apregoa?
O vocabulário vai ser diferente de um jornalista para outro porque os assuntos do jornais são muito variados. A linguagem jornalística é muito ampla. Muitas palavras que uso, não encontrava em textos de literatura. É uma impressão equivocada de que a linguagem jornalística é limitada.
A norma culta hoje é determinada pela imprensa, mais do que pela literatura?
A língua escrita é mais refletida gramaticalmente. No jornalismo se encontra uma representatividade do uso da língua portuguesa. A norma culta vem dos artigos de fundo, dos editoriais e não do noticiário. Optamos pela média de uso de cada verbete mais ou menos equilibrada de tal forma que o consulente possa optar. Por exemplo, no caso de palavras de gênero oscilante, como ''personagem''. Vou verificar a média de uso, se é mais usado ''o personagem'' ou ''a personagem''. No caso de ''personagem'', o uso é equilibrado.
O critério de entrada das palavras no DUP foi o número de ocorrências?
Para entrar no dicionário era preciso ter mais de uma ocorrência. A novidade é a entrada de advérbios de modo, terminados em ''mente''. Essas palavras têm os mais diversos empregos.
Quais são critérios para inserir os estrangeirismos e neologismos?
É preciso que o estrangeirismo tenha ocorrido em mais de um jornal, em seções diferentes e durante certo tempo para a fixação na linguagem. Muitos neologismos são estrangeirismos traduzidos ou são acepções novas para palavras existentes.


