São Paulo, 06 (AE) - Isidore Ducasse, aliás conde de Lautréamont, como ele se assinava, é um dos personagens mais misteriosos da literatura universal. Nasceu em 1846, em Montevidéu, filho de diplomata francês. Morreu em Paris, em 1870. Teve poucos anos de vida e deixou, na verdade, apenas um texto significativo, "Os Cantos de Maldoror". Suas obras completas cabem num único volume, confortável de carregar. Além dos "Cantos", conhecem-se apenas alguns poemas e cartas. Pouca coisa sobreviveu ao cidadão Isidore Ducasse. Um registro de óbito que não indica a causa da morte prematura, nenhum retrato conhecido, nenhuma referência significativa. Uma existência que passaria em branco, não fossem os "Cantos" nitroglicerina pura.
Seus contemporâneos já intuíam o caráter subversivo da obra. Um editor belga publicou os "Cantos" em 1869, mas não distribuiu os volumes com medo da repercussão. Somente em 1890 foram editados para valer e tornaram-se disponíveis ao público. Mesmo assim, esse texto incendiário ficou abaixo da linha de superfície até ser descoberto pelos surrealistas, já na década de 20 do século seguinte. Salvador Dalí, Luis Buñuel, André Breton e tutti quanti amavam as frases surpreendentes de Ducasse, escritas com raiva e desvario.
O personagem, Maldoror, adota o nome do herói arrogante de um romance de Eugne Sue. É a encarnação do mal. De um mal elevado a um plano poético inigualável. Se algumas passagens dos "Cantos" beiram a repugnância, outras, como a ode ao oceano, arrebatam pelo lirismo. É como se Ducasse, pela via de Maldoror, procurasse atingir o bem absoluto trilhando o caminho do mal absoluto. Mas, óbvio, essa é apenas uma impressão possível, causada por uma obra surpreendente. Nada, nenhuma experiência literária anterior, nos prepara para a leitura dos "Cantos".
O texto fundamental de Lautréamont foi traduzido no Brasil pelo poeta Cláudio Willer, em edição da Iluminuras.

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