Rio, 07 (AE) - O inglês Martin McDonagh, de 29 anos, o mais jovem dramaturgo a ter duas peças encenadas simultaneamente no circuito teatral profissional londrino, chegou ontem (06) ao Brasil para a estréia de sua peça "A Rainha da Beleza de Leenane", que ocorrerá na sexta-feira, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, no Rio. Xuxa Lopes, que atua no espetáculo com Walderez de Barros, Chico Diaz e Marcelo Médici, sob direção de Carla Camurati, comprou os direitos do texto, que ele afirma ter escrito em oito dias. Montado na Irlanda, chegou via Londres à Broadway, onde ganhou quatro Tonys.
McDonagh chegou ao Rio às 5 horas da manhã e, depois de descansar o dia inteiro, concordou em sair do quarto para uma conversa com a reportagem no fim da tarde. No restaurante localizado no 37.º andar do Hotel Meridien, em Copacabana, extasiou-se com a vista das praias. "Daqui dá para ver o Cristo no alto da montanha?", perguntou. "Pode-se caminhar sem perigo?" Simpático, porém visivelmente incomodado com a idéia de ter compromissos, deixou claro estar disposto a aproveitar a cidade feito um turista comum. "Quero ir à praia, ver as mulheres e jogar futebol", disse, mostrando os pés já calçados com chuteiras.
Filho de irlandeses humildes - seu pai era operário da construção civil e sua mãe faxineira de colégios, ambos hoje aposentados -, McDonagh não cursou universidade. Adolescente, pensava em desenhar para revistas em quadrinhos. "Se eu tenho talento para pintura, não sei, porque não tive a oportunidade para desenvolvê-lo", diz. Aos 20 anos, decidiu ser roteirista de cinema. Segundo ele, suas mais fortes influências vêm dos cineastas Martin Scorcese, Marco Ferreri e Tarantino. Tentou escrever roteiros, primeiro de longas-metragens, depois de curtas, mas não conseguiu criar uma boa história.
"O problema é que conheço muito a linguagem do cinema, vi muitos filmes e isso me bloqueava". Daí ter resolvido escrever para teatro. "Era muito mais fácil para mim, porque meu nível de exigência não era o mesmo". "A Rainha da Beleza de Leenane" foi a terceira peça de uma trilogia ambientada na pequena cidade de Leenane, no oeste da Irlanda. A primeira foi "The Lonesome West", que enfoca a relação de dois irmãos, uma recriação da história de Caim e Abel. Depois veio "A Skull in Connemara", sobre um marido que assassina a mulher, e "A Rainha da Beleza de Leenane", que enfoca uma relação simbiótica
de amor e ódio, entre mãe e filha. McDonagh escreveu ainda outras cinco peças antes que estourasse o sucesso de "A Rainha da Beleza".
Por que a escolha de Leenane? O lugarejo fica a 30 quilômetros da cidade onde nasceu seu pai, uma região que ele considera muito bonita, "quase como o Rio" e, além de gostar da "sonoridade" do nome, sentiu-se atraído pelo contraste entre a beleza local e aridez das relações entre os personagens. Trata-se de uma região agrícola, cujos habitantes são obrigados a optar entre a imigração para a Inglaterra ou os Estados Unidos ou a vida tacanha em Leenane. O problema é que, em outros países
sofrem o preconceito de ser irlandeses e mesmo em Dublin, capital da Irlanda, são vistos como "caipiras". Uma realidade que McDonagh viveu em sua casa, sendo filho de migrantes irlandeses. "Embora tenha nascido em Londres, sinto-me metade inglês, metade irlandês".
Um dos personagens da peça, o pretendente da filha, trabalha em Londres e, numa visita a Leenane, diz: "Quando estou em Londres, quero estar aqui, mas quando estou aqui não quero estar nem aqui nem lá". Por esse panorama social, traçado na peça, um crítico londrino viu na cruel personagem da mãe Mag, uma metáfora da pátria, da mãe Irlanda. "Não concordo", diz McDonagh. "Não pretendi criar metáforas ou personagens símbolos", afirma. Sua intenção foi unicamente retratar as "perigosas" relações familiares e criar personagens fortes. "Não pretendi traçar um panorama social e político do país e sim desenhar um mosaico familiar, não exatamente realista, porém com pinceladas fortes".
Ao terminar "A Rainha da Beleza" sabia de sua qualidade? "Sim!", diz McDonagh com uma sonora gargalhada. Mas volta atrás. "Não, eu sabia ter em mãos personagens muito fortes, mas não tinha a dimensão da universalidade da história". Segundo ele, a grande qualidade da peça é o tenso e constante equilíbrio entre tragédia e comédia. A temporada de "A Rainha da Beleza" na Broadway terminou em fevereiro e em abril estreou "The Lonesome West", mas não repetiu o sucesso de bilheteria e já saiu de cartaz. "Foi um sucesso artístico, eu, o diretor e o elenco ficamos satisfeitos", diz McDonagh.
Embora não tenha mais escrito peças após o sucesso, ele afirma não temer um novo bloqueio. "Criei muito antes disso e tenho muitas idéias". Com mais tempo e segurança, ele quer agora escrever um roteiro. "Vai ser um pouco mais fácil".

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