Autor catarinense é destaque no 9º CD "Coleção Alcoa de Música Erudita Brasileira"
São Paulo, 12 (AE) - A obra do músico Edino Krieger tem mais de uma centena de composições. Seis peças camerísticas do autor catarinense, que completou 70 anos em março, acabam de ser lançadas no nono CD da "Coleção Alcoa de Música Erudita Brasileira". O disco, que conta com interpretações da Orquestra de Câmara Villa-Lobos, sai com uma edição de 2 mil exemplares e será distribuído gratuitamente para escolas de música, universidades e principais entidades culturais do Brasil pelo Instituto Cultural e Filantrópico Alcoa.
Krieger considera o disco exemplar. "Tem um nível técnico e artístico compatível com o mercado internacional", disse, por telefone, á reportagem. O compositor, que atualmente trabalha numa peça orquestral encomendada pela Sinfônica do Estado (Osesp), com estréia em dezembro, não teve participação direta na escolha do repertório, mas, atendendo a um pedido do violinista Cláudio Cruz, fez uma transcrição da peça Sonâncias III Para Violino e Cordas, originalmente composta para piano e violino.
"Não foi fácil fazer a transcrição em função da cadência livre da peça original", observa o compositor. Na partitura para piano e violino não existia barra de compassos e Krieger teve de optar por uma versão metrificada na transcrição para orquestra de câmara. Porém, ele garante que a liberdade rítmica da peça foi preservada.
A peça mais antiga do disco remonta ao início de carreira do compositor. Chama-se Choro Para Flauta e Cordas e revela sutilmente a influência de seu professor Aaron Copland, compositor neoclássico e nacionalista americano com quem estudou em 1949, na Juilliard School de Nova York. A obra, de 1952, funde o choro e o samba com a tradição erudita.
"Ela é de uma fase experimental, em que estava particularmente interessado na música serial e dodecafônica", conta Krieger. "Discutia-se muito se essa técnica universalista era compatível com a forma brasileira, se era possível conciliá-la com a temática regionalista", lembra o autor. O resultado não deixa dúvidas sobre a qualidade da fusão.
Já o nacionalismo é uma questão superada, segundo Krieger. Mesmo assim, a presença de Brasiliana (1960) no repertório do disco, a única baseada em tema folclórico, não tem apenas interesse histórico. Ela é uma prova da antevisão do compositor sobre o livre trânsito entre a música popular e a tradição clássica, expressa, segundo ele, na obra de jovens compositores paranaenses como Chico Melo, Tato Taborda e o carioca Tim Rescala, entre outros.
"O compositor não deve se preocupar com rótulos", recomenda, concluindo que a evolução da música não se dá por exclusão, mas por acréscimo. Krieger cita seu Te Deum, composto em homenagem à visita do papa ao Rio de Janeiro há dois anos, em que fez uso de três modos, o gregoriano, o nordestino e o indígena nessa peça para coro infantil. O compositor não considera que a volta ao tonalismo ou o uso da linguagem modal possa traduzir apego demasiado à tradição ou o fim da experimentação musical. O polonês Gorécki e o estoniano Arvo Part não seriam nostálgicos, como defendem alguns críticos. "O novo não é o que nega o passado", defende.
A tendência atual, segundo Krieger, é o descompromisso estético, ao contrário da época em que iniciou sua carreira. Violinista desde criança, ele encontrou, ainda adolescente, o compositor Koellreuter e integrou, nos anos 50 e 60, o grupo experimental Música Nova, realizando experiências com a música dodecafônica. Krieger organizou projetos de educação musical e criou a Bienal de Música Contemporânea do Rio em 1975, realizando ainda, como diretor da Funarte, uma das coleções mais importantes sobre música brasileira, mais de 50 volumes reeditados pelo Instituto Itaú Cultural. (AGF)





