Quando te vejo de olhos lacrimejantes de tanto chorar pela pessoa errada... O verde bonito virou um vermelho triste. E eu sem ter o que fazer, faço-me de palhaço para te arrancar um sorriso. Você ri um riso tão sem graça, suspira fundo e diz que a vida é complicada. Queria te mostrar que a vida pode ser simples e doce. Como um sábado e domingo de sol, com pipoca e Coca-Cola, comédia romântica na TV, aconchego no sofá, raspa de doce de leite no fundo da panela
Como um beijo de mãe, abraço de pai, carinho de avós, passeio no parque de mãos dadas, farelo de pão para os pássaros, assistir o pôr-do-sol abraçados.
Como churrasco com os amigos, roda de bate-papo, cerveja sem ressaca; jogo de cartas, música ao vivo, amor de madrugada, comer a caixa toda de bombons sem culpa, beijo com gosto de Sonho de Valsa.
Mas você não me ouve. Concentrada no seu livro de gramática, a decorar suas regras. Tanto que já te apelidaram de Aurélia. Diz que amar é verbo intransitivo indireto, porque quem ama, ama alguém. E ficamos outra vez sem nos entender. Porque eu queria amar sem regras, escrever sem conhecer a gramática, e continuo sem ter alguém.
Você pensa no seu príncipe encantado, que nada tem de encantado, que nem passaria como nobre vagabundo. Eu escrevo versos em folhas avulsas, depois amasso e atiro contra o ventilador.
Você diz que escrevo tudo errado. Que não sei concordância, coesão, coerência, pontuação e ortografia. Digo que não está errado, que criei um neologismo involuntário. Você sorri, diz que só me perdoa que porque tenho licença poética. Observo seu sorriso, seus dentes alvos, sua sobrancelha saliente, teu olho verde, tua unha pintada de vermelho, o tilintar de suas pulseiras e brincos, a maneira como joga os cabelos para trás. Cada gesto seu é um poema.
Só te perdôo porque você é uma poesia que respira.
Ricardo Chagas é estudante de Letras da faculdade Univale de Ivaiporã

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