Esqueça aquelas aulas enfadonhas de análise sintática em que o aluno deve descobrir, diante de uma frase solta, o sujeito e outras estruturas que fazem parte da gramática da língua portuguesa. O enfoque moderno nessa área de ensino sugere que se deve contextualizar, procurar dar uma finalidade criativa para o texto produzido pelo aluno e capacitá-lo a dialogar de forma interpretativa com o material impresso. Perceber as nuances, muitas vezes sutis do autor, como a ironia, e os recursos implícitos, também estão nessa nova proposta de ensino do português.
Com essa abordagem, a professora Eliana Merlin Deganutti de Barros pesquisou na sua dissertação de mestrado a crítica de cinema como ferramenta a ser utilizada na sala de aula. Atuando na área de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Londrina, da qual agora é doutoranda, Eliana usou na pesquisa dez críticas de cinema elaboradas pelo jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge, publicadas pela FOLHA em 2007. A dissertação ''A apropriação do gênero crítica de cinema no processo de letramento'' teve orientação da professora Elvira Lopes Nascimento, que desde 2004 desenvolve projeto de pesquisa nessa área na UEL.
''A partir de uma pesquisa informal com os alunos percebi que tinham muito interesse pelo cinema e comecei a investigar o quanto as críticas poderiam estimulá-los a aprender a língua portuguesa'', comentou a pesquisadora.
As matérias da FOLHA foram indicadas por diversos professores da UEL. O crítico Carlos Eduardo escreve para o jornal desde 1969. ''Foi uma forma de também prestigiar um trabalho realizado na nossa cidade'', acrescentou.
A pesquisadora explica que a crítica de cinema como objeto de ensino da língua portuguesa pode ser adaptada para qualquer nível de ensino e que o professor não deve desprezar a capacidade argumentativa - tão em evidência nesse tipo de gênero de texto - mesmo nos alunos do ensino fundamental.
''Não devemos trabalhar a língua portuguesa como um sistema fechado; ela deve ser ensinada em uso, em funcionamento. No caso da minha pesquisa, mostro como a partir da crítica de cinema - texto que já tem um apelo de interesse junto aos alunos -, pode-se aprender as várias estruturas da linguagem'', ressaltou.
Ela também destacou que normalmente o trabalho didático com o cinema fica restrito à exibição e discussão superficial sobre o tema do filme. ''A crítica seria uma forma de direcionar essas discussões e ampliar o poder argumentativo do aluno para o texto escrito, onde ele terá que usar as estruturas corretas, como os conectivos e conjunções, por exemplo.''
Para Carlos Eduardo, que desde 1995 também participa dos festivais de Cannes e Veneza, integrar a dissertação foi um reconhecimento do seu trabalho. ''Achei muito interessante e conversando com outros críticos do circuito nacional ficamos surpresos pela iniciativa e por esse tipo de abordagem'', ponderou.
Ele acredita que a leitura da crítica na sala de aula pode servir como estímulo para a formação de leitores mais críticos e que procurem um envolvimento mais adensado com as argumentações. ''Por outro lado, a crítica está mudando e buscando novos espaços, principalmente na internet, com uma linguagem mais próxima do leitor e com um leque infinito de possibilidades'', concluiu o jornalista, atualmente responsável pela programação do Cine Com-Tour/UEL (circuito alternativo).
Parte da entrevista feita com Carlos Eduardo pode ser conferida na sétima edição da Revista Txt, publicada pelo Departamento de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (confira no site http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/revistatxt7/entrevista_eliana.html). A versão on-line da dissertação também em breve poderá ser conferida na biblioteca digital da UEL: www.bibliotecadigital.uel.br

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