Beatriz Coelho Silva
Agência Estado
Vai chamar-se ‘‘Hamlet e o Filho do Padeiro’’ a autobiografia do dramaturgo e diretor de teatro Augusto Boal, com lançamento previsto para março pela editora Record. O título é uma referência óbvia à sua ligação com o teatro e suas origens suburbanas: ele é da Penha Circular, bairro da zona norte carioca e seu pai era português, o padeiro do título. O livro conta a gênese do Teatro do Oprimido, criado por Boal, seus 68 anos de andanças pelo mundo e sua militância política que o levou a ser vereador no Rio, pelo Partido dos Trabalhadores, entre 1993 e 1996.
‘‘Só não falo de minha intimidade porque não pertence só a mim, mas a todas as pessoas com quem me relacionei’’, avisa Boal, cuja agenda está completa em 2000. Em abril, estréia ‘‘O Amigo Oculto’’, texto inédito seu, que terá Joana Fomm e Françoise Fourton no elenco. Em julho ele vai a Paris (se conseguir todas as passagens) levando sua sambópera ‘‘Carmem’’, sucesso do ano passado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Uma nova ópera abrasileirada, desta vez ‘‘La Traviata’’, de Guiseppe Verdi, está prevista para outubro e, finalmente, em dezembro, ele faz no Rio um festival de Teatro do Oprimido. ‘‘La Traviata’’ servirá para comemorar os 400 anos de encenação da primeira ópera, o que, segundo Boal, ocorreu nos festejos do casamento do rei Henrique IV, da França, com Catarina de Toscana, em outubro de 1600. ‘‘O tema escolhido foi a história de Orfeu e Eurídice, da mitologia grega, totalmente desapropriado para a ocasião, pois a mocinha desaparece, é reencontrada pelo mocinho, mas morre no fim’’, lembra. ‘‘O rei então mandou mudar o fim do espetáculo, para Eurídice não morrer; assim a ópera, já na primeira montagem, foi censurada’’.
‘‘Hamlet e o Filho do Padeiro’’ começou ser escrito no fim de 1997, a pedido da editora inglesa de Augusto Boal, a Routledge. Boal não pensava nisso ainda, mesmo porque não guardou documentos de sua vida de muitos exílios. ‘‘Saí corrido do Brasil e deixei tudo para trás, em 1971, depois de ter sido preso pelo Fleury; ocorreu o mesmo na Argentina, em 1976, com o golpe do Videla, e fui embora às pressas, mas não corrido, de Portugal, no início dos anos 80, quando fui convidado para lecionar na Universidade de Sorbonne, em Paris’’, lembra ele sem mágoa. ‘‘Até documentos, como carteira profissional, foram levados pela polícia’’.
Sem documentos, Boal recorreu à memória. Sua e das duas irmãs, Augusta e Aída, com quem teve longas reuniões para falar do passado, desde o romance de seus pais, ainda em Portugal. Para ele, a feitura do livro teve três fases distintas. ‘‘Selecionei só o que me emocionou, me deu carinho ou pavor e, quando escrevia, o processo era como uma catarse, de tudo o que vivi’’, enumera.
Quando foi reler e cortar os excessos, ele conta que tudo aquilo voltou como um bumerangue e o fez sofrer de novo, revivendo as coisas boas e ruins. ‘‘Agora, quando vejo a tradução inglesa, parece que aquilo aconteceu com outra pessoa, ou melhor, poderia acontecer com qualquer brasileiro’’.
Boal reconhece que muitos livros seus são autobiográficos, à medida que contam suas experiências profissionais e essas se misturam com sua vida pessoal. Mas ressalta que suas teorias, técnicas, projetos e sonhos do Teatro do Oprimido e, mais recentemente, do Teatro Legislativo (que leva as pessoas a refletir sobre como são e como queriam ser governadas pelo poder público), estão espalhadas em muitos volumes.
‘‘Para mim, seria ótimo se as pessoas comprassem todos os livros, mas ‘‘Hamlet e o Filho do Padeiro’’ resume tudo que vivi’’, conclui ele. ‘‘Ou melhor, se Pablo Neruda deu à sua autobiografia o título ‘‘Confesso Que Vivi’’, a minha deveria ter como subtítulo ‘‘Confesso que Vivo’’.

mockup