Rio, 28 (AE) - Vai chamar-se "Hamlet e o Filho do Padeiro" a autobiografia do dramaturgo e diretor de teatro Augusto Boal, com lançamento previsto para março pela editora Record. O título é uma referência óbvia à sua ligação com o teatro e suas origens suburbanas: ele é da Penha Circular, bairro da zona norte carioca e seu pai era português, o padeiro do título. O livro conta a gênese do Teatro do Oprimido, criado por Boal, seus 68 anos de andanças pelo mundo e sua militância política que o levou a ser vereador no Rio, pelo Partido dos Trabalhadores, entre 1993 e 1996.
"Só não falo de minha intimidade porque não pertence só a mim, mas a todas as pessoas com quem me relacionei", avisa Boal, cuja agenda está completa em 2000. Em abril, estréia "O Amigo Oculto", texto inédito seu, que terá Joana Fomm e Françoise Fourton no elenco. Em julho ele vai a Paris (se conseguir todas as passagens) levando sua sambópera "Carmem", sucesso do ano passado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Uma nova ópera abrasileirada, desta vez "La Traviata", de Guiseppe Verdi, está prevista para outubro e, finalmente, em dezembro, ele faz no Rio um festival de Teatro do Oprimido.
"Trabalho o tempo todo porque é a coisa que mais gosto de fazer", explica. "Essas atividades me cansam só fisicamente e então eu viajo pelo interior do País para me distrair", conta. "No último fim de semana, por exemplo, estive em Tiradentes, cidade histórica de Minas, e fiquei encantado não só com a beleza do lugar, mas também com a hospitalidade e a gentileza das pessoas, desde o garçom que serve a cerveja e se preocupa o tempo todo com o seu conforto". Boulevard macabro - O entusiasmo com que Boal fala de seus projetos confirma sua paixão por tudo que faz. "O Amigo Oculto, a peça que vai estrear, é o que eu chamo de boulevard macabro, um espetáculo com a estrutura das comédias que agradam ao público hoje em dia", explica o diretor. "Promovo uma festa de amigo oculto só que, na hora da entrega dos presentes, em vez de as pessoas se elogiarem, elas fazem um jogo da verdade, dizendo o que realmente pensam das outras; tenho outros trabalhos que usam esse tipo de estrutura tradicional".
O diretor tem outro texto inédito para teatro, "Herança Maldita", uma história policial. Ele estreou nesse gênero em meados dos anos 50, quando voltou dos Estados Unidos com uma pós-graduação em Química, na Universidade de Columbia, e recusou um emprego na Petrobras, então recém-criada. "Meu primeiro trabalho foi traduzir uma revista policial americana recheada de muita violência, a "X-9", e eu inventava bastante", lembra Boal. "Se gostava da história, aumentava as tramas, mas quando não me agradava, matava personagens e depois precisava ressuscitá-los, pois eles influíam no desenlace do crime".
Boal não sabe se vai dirigir o espetáculo, previsto para estrear maio. Ele já se comprometeu com universidades americanas
onde dará cursos sobre sua técnica do teatro do oprimido em abril e não poderá acompanhar a montagem. Mas a nova sambópera, "La Traviata", está em pleno processo de criação, formando o mesmo trio que deu certo em "Carmem": Marcos Leite fará os arranjos e Celso Branco, a tradução do libreto, em parceria com Boal. "A ária principal, "O Brinde", será uma toada paulista, que desagua num sambão, enquanto a cena da morte de Violeta, a personagem principal, será uma incelência", adianta o diretor. "E o baile será realizado ao som de um frevo". A Dama das Camélias - A novidade de "La Traviata" será a radicalização, em cena, dos métodos de Boal. "Nos ensaios, tentamos buscar os sentimentos menos explícitos dos personagens e representamos todas as pessoas que estão no texto, citadas ou não", esclarece o diretor. "Agora levamos à cena, nesta ópera baseada em "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas", continua. Ele conta que no momento em que o pai de Alfred, o amante de Violeta fala com ela, aparecem em cena todas as pessoas a que ele se refere.
"La Traviata" servirá para comemorar os 400 anos de encenação da primeira ópera, o que, segundo Boal, ocorreu nos festejos do casamento do rei Henrique IV, da França, com Catarina de Toscana, em outubro de 1600. "O tema escolhido foi a história de Orfeu e Eurídice, da mitologia grega, totalmente desapropriado para a ocasião, pois a mocinha desaparece, é reencontrada pelo mocinho, mas morre no fim", lembra. "O rei então mandou mudar o fim do espetáculo, para Eurídice não morrer; assim a ópera, já na primeira montagem, foi censurada".
Com "Carmem" e "La Traviata", Boal pretende criar a Companhia Brasileira de Sambópera, com um elenco fixo e possibilidade de pesquisar novos métodos e tipos de espetáculos. E já pensa numa terceira produção. "Desta vez seria Orfeus e Eurídices, uma montagem de todas as óperas, desde essa primeira até as atuais, que visitam esse tema", brinca o diretor. "É interessante ver que cada autor - são sete ou oito - contou a história de um jeito, dando características diferentes aos dois personagens e até ao que ocorre com eles".
Catarse - "Hamlet e o Filho do Padeiro", começou ser escrito no fim de 1997, a pedido da editora inglesa de Augusto Boal, a Routledge. Boal não pensava nisso ainda, mesmo porque não guardou documentos de sua vida de muitos exílios. "Saí corrido do Brasil e deixei tudo para trás, em 1971, depois de ter sido preso pelo Fleury; ocorreu o mesmo na Argentina, em 1976, com o golpe do Videla, e fui embora às pressas, mas não corrido, de Portugal, no início dos anos 80, quando fui convidado para lecionar na Universidade de Sorbonne, em Paris", lembra ele sem mágoa. "Até documentos, como carteira profissional, foram levados pela polícia".
Sem documentos, Boal recorreu à memória. Sua e das duas irmãs, Augusta e Aída, com quem teve longas reuniões para falar do passado, desde o romance de seus pais, ainda em Portugal. Para ele, a feitura do livro teve três fases distintas. "Selecionei só o que me emocionou, me deu carinho ou pavor e, quando escrevia, o processo era como uma catarse, de tudo o que vivi", enumera. Quando foi reler e cortar os excessos, ele conta que tudo aquilo voltou como um bumerangue e o fez sofrer de novo, revivendo as coisas boas e ruins. "Agora, quando vejo a tradução inglesa, parece que aquilo aconteceu com outra pessoa
ou melhor, poderia acontecer com qualquer brasileiro". Sonhos - Boal reconhece que muitos livros seus são autobiográficos, a medida que contam suas experiências profissionais e essas se misturam com sua vida pessoal. Mas ressalta que suas teorias, técnicas, projetos e sonhos do Teatro do Oprimido e, mais recentemente, do Teatro Legislativo (que leva as pessoas a refletirem sobre como são e como queriam ser governadas pelo poder público), estão espalhadas em muitos volumes.
"Para mim, seria ótimo se as pessoas comprassem todos os livros, mas "Hamlet e o Filho do Padeiro" resume tudo que vivi", conclui ele. "Ou melhor, se Pablo Neruda deu à sua autobiografia o título "Confesso Que Vivi", a minha deveria ter como subtítulo "Confesso que Vivo".

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