Acostumados a verem filmes de origem americana e com uma narrativa mais linear, um grupo de 30 alunos do quinto ano da Escola Municipal Carlos Dietz, de Londrina, se surpreenderam com a linguagem diferenciada dos quatro curtas-metragens nacionais a que puderam assistir dentro da programação da "Mostra Sesc de Cinema – Edição Londrina", realizada pelo Sesc Londrina, do dia 23 a 27 de julho, em evento comemorativo aos 80 anos de Londrina. Promovido pelo Programa Folha Cidadania, a visita das crianças aconteceu no dia 25 de julho, na parte da manhã, e garantiu muita aprendizagem e diversão.
A maioria dos alunos não conhecia o Sesc e não sabia que o local realiza com frequência exibição de filmes que normalmente não fazem parte do circuito comercial. Na Sala de Espetáculos, em um espaço bastante intimista, os alunos estavam ansiosos para conferirem os curtas infantojuvenis da programação.
O primeiro curta exibido foi o premiado "João Pipoca" (2004), do diretor londrinense Anderson Craveiro. Filmado em Londrina, o curta mostra a dura realidade de crianças que moram na periferia e lidam constantemente com situações de risco e o assédio para que se envolvam com o crime e o tráfico de drogas. No caso de "João Pipoca", o personagem principal sai de casa, todos os dias, para vender pipoca na região central de Londrina e vive à mercê de traficantes e aliciadores. O enredo também faz paralelo com a realidade familiar do personagem e, depois de 20 minutos de uma tensão iminente, tem um desfecho inesperado.
Em seguida, eles assistiram ao curta "Os Olhos Não Têm Cerca" (2010), que de forma poética mostra o encanto de três meninos ao observarem três garotas tomando banho de sol na piscina de um clube, fazendo alusão a registros fotográficos que trazem como destaque a musa Leila Diniz (1945-1972). Considerada uma mulher à frente de seu tempo, ousada e que detestava convenções, a atriz carioca nas décadas de 1960 e 1970 quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava o Brasil, escandalizou ao exibir a sua gravidez de biquíni na praia e chocou o País inteiro com frases polêmicas sobre liberdade sexual.
Depois foi a vez de conferirem o curta "Meia Noite, Meia" (2011), que conta a desventura de um grupo de amigos em uma tentativa frustrada de fugir de casa pegando carona em um trem de carga. Refletindo bem o universo conflitante da adolescência, mostra com sutileza os anseios de liberdade que marcam essa fase da vida.
O curta que encerrou a programação foi o "Prova de Coragem" (2013), que conquistou as crianças em cheio ao contar a história de um grupo de amigos escoteiros que precisam passar por uma prova de coragem. Acampados em uma barraca, no meio do mato, tudo pode acontecer diante da lenda do "Boi Barroso". As risadas marcaram a exibição e fecharam com chave de ouro a manhã festiva, que driblou a rotina escolar de forma criativa. Todos os três últimos curtas foram produzidos durante as Oficinas Kinoarte.
Durante o lanche oferecido às crianças, elas também puderam conferir a "Exposição Nitis Jacon – Memória e Recordação", que aborda a trajetória da atriz, diretora, produtora e psiquiatra Nitis Jacon, que criou o Festival Internacional de Londrina (Filo), que este ano chega à sua 46ª edição, a ser realizada de 22 de agosto e 7 de setembro.

ESTÍMULO
A professora Rosely Sivieri elogiou a iniciativa: "Foi muito interessante a seleção e sequência dos filmes, que realmente conseguiram manter a atenção deles por não serem longos e tratarem de assuntos diferentes. É um excelente trabalho e não sabia que realizavam esse tipo de mostra aqui. O curta que mais gostei foi "Prova de Coragem" por achar que tem mais a ver com o universo deles", destaca.
Já a professora Elisângela Costa Rebello Cardoso, responsável pela contação de histórias na escola, considerou que a atividade também serviu para estimular o hábito da leitura e escrita. "É legal porque eles têm que imaginar o antes e o depois e, de certa forma, os filmes também ressaltam a importância da leitura, já que o roteirista e o diretor precisam ter muitas referências de leitura para criar as histórias e imaginar os personagens. São textos transformados em imagens", observa.
Ela adiantou que irá dar continuidade a esse trabalho a partir das impressões dos alunos sobre os curtas. "É bom também que eles tenham contato com outras referências de filme, saindo um pouco dos produtos mais formatados e comerciais. Outro aspecto interessante é que os curtas que viram hoje têm proximidade com o universo deles, com vivências que passam com os amigos", afirma.
Esse tipo de atividade extracurricular, segundo ela, também é uma forma de motivar talentos e interesses: "É esse tipo de atividade que pode despertar no aluno o desejo de ser um cineasta, um fotógrafo, um ator, entre tantas possibilidade que o cinema oferece", conclui.

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