Atuação competente em ''Valsa nº 6''
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quinta-feira, 22 de junho de 2000
Francelino França De Londrina 
Sônia, uma criatura trágica, acaba de morrer. Naquele imponderável espaço de tempo entre vida e morte, ela narra o filme de sua vida, num estado de delírio-choque permanente. Uma agonia deflagrada por um punhal de prata. São lampejos da memória, num flash-back desgovernado, em que o inconsciente de Sônia regurgita uma rajada de monstros: pai, mãe, médico, amante. A menina-moça conduz em golfadas intermitentes as figuras que transpuseram seu caminho, deixando traumas irreversíveis.
Esse é o panorama de Valsa nº 6, único monólogo de Nelson Rodrigues, que a atriz Carla Diacov leva à cena até dia 9 de julho, em Londrina, num espaço concebido especialmente para o espetáculo, a Casa de Sônia. A atriz empreendeu uma jornada solitária, primeiramente ao escolher um monólogo desagradável, e depois, mais perigosamente, ao prescindir da figura do diretor, contando apenas com a direção de palco.
Carla Diacov escolheu um desenho de palco que estabelece um elo com o itinerário das imagens da memória. Algumas cadeiras brancas distribuídas estrategicamente na sala, em que se fundem cenário e platéia, dando permissão ao público de compartilhar desse atordoamento. A agonia esquizofrênica de Sônia, faz com que ela perambule entre o idílio da infantilidade e a perdição de ser mulher. Sônia/Carla nos remete a uma bailarina de Degas, contrapondo com um figura do Kabuqui japonês, vagando no labirinto de cadeiras.
Em Valsa nº 6, o público precisa brigar com a própria racionalidade e a lógica para penetrar no hermetismo do texto rodriguiano. Não é uma narrativa linear, mas a atriz insere a platéia no jogo com propriedade. Carla Diacov revela as inúmeras faces de Sônia, com segurança e desenvoltura, ao passar de um personagem para outro, sem resvalar no encantamento gratuito. O médico (Dr. Junqueira) se transformou num monstro. O efeito grotesco e incômodo iluminaram a expressividade vigorosa da atriz, nos vários desdobramentos exigidos por Nelson Rodrigues
A atriz imprimiu à personagem certa aspereza, num ambiente que foi se tornando sufocante, à medida em que Sônia se revela face a face com o público. Carla soube aproveitar o espaço, principalmente nas cenas com as luminárias, num efeito cênico interessante. A atriz procurou seguir as rubricas do autor, uma forma metafórica de ter um diretor, o que lhe assegurou uma inflexão variada.
Os diretores teatrais que prestem atenção nessa atriz. Mesmo com a proposta de não compactuar criativamente com um diretor, Carla Diacov clama por um. Nossa auto-imagem nunca corresponde àquilo que somos. Por isso, a figura de um diretor poderia orquestrar com maior propriedade as pausas, direcionar os olhares, domar a ansiedade, fazendo emergir todo o potencial dramático da atriz, que se revela a cada espetáculo.
Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, atuação e direção geral de Carla Diacov. De sexta a domingo, às 22 horas, até o dia 9 de julho. O espetáculo acontece na Casa de Sônia, Rua Terezina, 78, em Londrina. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, terceira idade e classe artística pagam R$ 5,00).


