ATRIZ POR VOCAÇÃO E FAMILIARIDADE
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de agosto de 2001
Rodrigo Teixeira<BR>TV Press 
Júlia Lemmertz bem que tentou não enveredar pela vida artística. Tudo a empurrava nessa direção, como filha da falecida atriz Lilian Lemmertz e do ator Linneu Dias, que atualmente vive o velho Venâncio, na minissérie ''Presença de Anita''. Mas, aos 18 anos, esta gaúcha de Porto Alegre estava decidida a prestar vestibular para Veterinária quando fez um teste de vídeo despretensioso. Após ser comunicada que havia sido aprovada para integrar o elenco da novela ''Os Adolescentes'', exibida pela Band em 1981, qualquer dúvida que Júlia pudesse ter, desvaneceu-se. Abandonou a idéia de cuidar de cavalos e resolveu seguir a mesma profissão dos pais. ''Percebi que era minha sina, pois me sentia estranhamente à vontade atuando. Algo que passou para mim por osmose'', explica a atriz, que desde criança frequentava sets de gravações e coxias de teatro.
Duas décadas depois, Júlia não consegue imaginar-se em outra profissão. Atualmente na pele da beata Genésia de ''Porto dos Milagres'' e com 14 novelas no currículo, a atriz não se deixa levar pela vaidade. ''Me orgulho do que fiz nestes 20 anos, mas estou começando ainda. Construo minha carreira tijolo por tijolo'', afirma Júlia. Vaidade, aliás, que a atriz teve de esquecer para viver a carola Genésia da novela de Aguinaldo Silva, já que a personagem passa longe de qualquer glamour. ''Emprestei meu jeito desengonçado para a Genésia'', brinca a esbelta Júlia.
A atriz tem 1,77 m de altura e 61 quilos, mas de desengonçada não tem nada. Na verdade, Júlia exibe uma elegância exuberante, tanto nos gestos como no que fala. Casada com Alexandre Borges, com quem vive ao lado da filha de 13 anos e do filho de 1 ano e cinco meses, a atriz deixa claro que fazer só televisão não bastaria para ela. Nem mesmo se fosse para viver somente protagonistas. Para Júlia, estar em cima do palco e atuar em filmes é fundamental para não se arrepender da decisão que tomou há 20 anos. ''Meu objetivo é chegar aos 60 anos e ser uma atriz bacana. Isso é que importa'', garante a sorridente atriz de 38 anos.
Como é interpretar uma personagem virgem em pleno início do Século XXI?
É inusitado. Fiquei pensando como seria uma mulher que nunca foi tocada por um homem. Nem um beijo... Mas é só imaginar, como seria fazer uma míope sem ser míope. Na verdade, confiei muito no Aguinaldo Silva, com quem só havia feito a minissérie ''Tenda dos Milagres'' e a adaptação de Shakespeare para a tevê ''Othelo de Oliveira''. Mas confesso que não foi o fato de ela ser virgem que me preocupou. Na verdade, não me imaginava fazer alguém com sotaque baiano. Mas relaxei. Depois que você aceita um trabalho na tevê, não dá para ter dúvidas. Tem que se atirar e fazer.
No teatro e no cinema você fez várias protagonistas. Mas na Globo ainda não, apesar de ganhar papéis de destaque. Você se ressente com isto?
Não me preocupo. Prefiro ter um bom papel do que uma protagonista chata e ter de decorar texto como uma maluca. Com um personagem menor, você transforma cinco ceninhas em cenas maravilhosas. Mas com 30 cenas em um dia, tudo fica meio regular. Acho que ganhar uma protagonista representa mais status para a imprensa e na emissora do que para o próprio ator. Sou atriz para todo tipo de papel, não só protagonista. Nunca me incomodei com isso, até porque faço protagonistas no cinema e teatro. O que almejo é chegar aos 60 anos como uma atriz bacana. São outras ambições. Na verdade, a Genésia é a personagem central do livro ''A Descoberta da América Pelos Turcos'', de Jorge Amado, que serviu de base para a novela.
A Genésia é a sua segunda personagem que transita pelo humor. O que está achando da experiência?
Após viver várias mocinhas e duas vilãs, o que está acontecendo é que estou ganhando cada vez mais papéis diversificados. Então acho que estou me transformando em uma atriz mais completa. Humor, quando não é gratuito, sempre é bom. Mesmo porque passar oito meses chorando é duro de aguentar. Aprendi muito com a Nicete Bruno em ''Andando Nas Nuvens''. Formamos uma bela dupla e achamos juntas o tom das nossas personagens.
Diz-se que ''Porto dos Milagres'' é mais vista do que comentada. Você sente isso também?
Olha, sou bastante abordada nas ruas. Acho que a novela é popular, mas não cria polêmica. Não tem ninguém com câncer. É extremamente fictícia. Por mais que fale de política, a gente sabe que Porto dos Milagres não existe. Também não é uma novela tão louca como ''Saramandaia'', por exemplo, pois não vai tão fundo no realismo fantástico. Fica no meio termo. Então, acho que ''Porto dos Milagres'' é o típico novelão. Não cria polêmica, mas o espectador quer assistir aos capítulos para ver o que vai acontecer. Confesso que sou noveleira. Sempre adorei televisão, apesar de ter demorado a me decidir pela profissão de atriz.
Por quê você resistiu à idéia de se tornar atriz?
Por medo. Achava que não era para mim. Desde os quatro anos já fazia participações em filmes, como ''As Amorosas'', do Walter Hugo Khouri. Para mim era uma farra. Mas tinha uma certa reserva. Talvez por achar que poderia ser mais fácil para mim por ter pais atores. Na época que me chamaram para o teste em ''Os Adolescentes'', morava em São Paulo e estudava para o vestibular de Veterinária. Era outro projeto de vida. Quando fiz o teste, jamais imaginei que iria fazer a novela mesmo. Achei que não iria rolar, mas após uma semana me ligaram falando que tinha sido aprovada. Meus pais levaram um susto. Então larguei a Veterinária e nunca mais voltei.
Vinte anos depois, com uma personagem de destaque na novela das oito, você se imagina em outra profissão?
De modo algum. Me orgulho em ser atriz. Mas, para mim, a carreira é tijolo por tijolo. Na verdade, estou construindo a minha carreira. Vinte anos não é nada se for pensar que posso ter uma carreira de 50 ou 60 anos. Vejo que no começo era muito ávida por trabalho. Tudo que aparecia na frente eu queria. Deste modo, fiz três novelas na Band, passei pela Globo e fui para a Manchete. Era atirada. Hoje em dia escolho mais do que sou escolhida e já tenho o privilégio de falar o que quero fazer ou não. Gosto de estar na Globo agora porque consigo fazer meu trabalho direito e as pessoas assistem realmente. Mas teve um momento que buscava abrir outras frentes para a dramaturgia fora da Globo.
Você se decepcionou?
Não sei se é esta a palavra. Tudo que fiz na Manchete, por exemplo, eu acreditava muito. ''Kananga do Japão'' era bem-feita e tinha a excelente direção de Tizuka Yamasaki. Já ''Amazônia'', concebida como minissérie por Jorge Duran, acabou virando novela e desandou. A Manchete tinha um espírito empreendedor, mas ao mesmo tempo a administração era uma loucura. Mesmo assim, gostei de viver a Maria Luiza, uma moça moderna para o final do Século 18.
Você acredita que o trabalho do ator na tevê é mais de transpiração do que inspiração?
Depende do volume de cenas para gravar. Se tiver muito, você vai ficar naquele turbilhão de 30 cenas para cumprir em um dia. Mas, independentemente, estudo para fazer todas as cenas bem. Na tevê, o ator tem de fazer o dever de casa. Não dá para ver o que vai rolar na hora. Pode ser até que o diretor mude algo, mas o ator tem de estar com tudo na cabeça. Mesmo porque acredito que chega um momento que o ator sabe mais sobre o personagem do que o próprio autor. O trabalho na tevê é sério e realmente exaustivo. Você passa oito meses lutando para que seu desempenho na novela faça sentido. Por isso, acho que não conseguiria fazer apenas televisão.
Por quê?
Porque artisticamente acho que vou render pouco. Se também puder fazer cinema e teatro, vou estar melhor em cena. Não dá é para fazer uma novela atrás da outra e, graças a Deus, nunca me obrigaram a fazer isso. Sou contratada da Globo, por isso posso até não fazer uma novela ou outra por não gostar do papel, mas vai chegar uma hora em que vou ter de fazer. Mesmo porque eles me contrataram para trabalhar, independentemente do formato da produção.
Para ter mais liberdade, não seria melhor ser contratada por obra?
Não sei. Nunca deixei de fazer um projeto por ser contratada. Se acontecer e for realmente traumático, talvez deixe de ser contratada. Por enquanto, tem dado certo. Durante ''Porto dos Milagres'' fiz o filme ''As Três Marias'', de Aluizio Abranches, por exemplo. Mas é uma troca. Não dá para prejudicar o andamento da novela por causa de um trabalho fora da Globo.


