Não causa nenhuma surpresa a fria acolhida que recebeu ''The Others'' no Festival de Veneza. Afinal, é conhecida a má vontade de boa parte da crítica mundial diante de obras de horror que reivindicam status de qualidade. E embora não preencha, digamos, a definição mais corrente e aceita de um ''filme de festival'', sendo até mesmo discutível sua inclusão numa teoricamente exigente mostra competitiva como a de Veneza como discutíveis são diversos outros títulos na briga pelo Leão de Ouro , ''The Others'' é um grande filme que desde já se candidata a um lugar de honra na galeria dos mais arrepiantes ''thrillers'' de fantasmagoria já realizados pelo cinema.
A ilha de Jersey existe, como ficaram sabendo há pouco os brasileiros de olho nos dólares de Paulo Maluf depositados neste paraíso fiscal entre as costas inglesa e francesa. É ali, em 1945, numa imensa e isolada mansão vitoriana sempre envolta em névoa que se passa a história. Vivendo com os dois filhos Anne e Nicholas em obsessiva, quase fanática disciplina religiosa, Grace Nicole Kidman em grande momento espera que o marido volte da guerra. As crianças sofrem de fotofobia e não podem ser expostas à luz. As cortinas devem estar sempre fechadas e na casa nenhuma porta se abre antes que a anterior seja fechada. Estas ordens são repassadas a três novos empregados que chegam à mansão. Mas logo as imposições de Grace serão desafiadas. Ela, as crianças e quem mais ao redor vão conhecer estranhas novidades. Pode-se dizer ainda que o marido volta, mas o que se verá a seguir não é permitido revelar.
''The Others'' é uma história de fantasmas narrada a rigor, com o casarão típico e infestada de ruídos e visões. O filme cita com frequência o Hitchcock da fase em preto e branco, ainda que se saiba que o mestre de todos era refratário a explicações sobrenaturais. Usando com parcimônia os efeitos especiais, o jovem diretor Alejandro Amenábar prefere se deixar influenciar pelo melhor da literatura gótica inglesa e americana. É um alívio assistir a um filme de horror contemporâneo que devolve inocência ao gênero, deixando sua marca sem ironia e sem exploração mórbida do terror pós-moderno. À primeira vista um filme fora de moda, sem pirotecnias, ''The Others'' é na verdade ambicioso e original quando explora a complexidade psicológica do mito e da superstição, quando propões inquietantes questões existenciais. Por isso é um filme de horror para platéias adultas.
Quanto à Nicole Kidman, em maio, em Cannes, por ocasião do lançamento de ''Moulin Rouge'', entrevista nem pensar. Separação recente, assédio implacável, reclusão óbvia. Mas aqui em Veneza era outra a assessoria. A aproximação com a atriz foi mais tranquila e a conversa com a Folha e outros três jornais ficou afinal agendada para o Hotel Cipriani, longe da agitação do Lido. Alta, esguia, pele de lívida porcelana, cabelos avermelhados presos em cachos, bonita sem no entanto aquela aura das verdadeiras divas, Nicole Kidman parece mais magra e elegante metida numa espécie de tailleur bege e branco que deixa à mostra o umbigo. Quando coloca os óculos por conta de uma miopia fica mais charmosa, o fascínio aumenta. Vulnerável só na superfície, sem afetação e sempre interessada, mesmo sabendo que o tempo é curto responde a todas as perguntas.

''The Others'' é uma viagem ao redor do mistério da morte, quase um mergulho existencial. Por que decidiu fazer o papel desta mãe e mulher neurótica, instável?
É um thriller psicológico, gênero que amo muito. Penso em ''Psicose'' ou ''Um Corpo que Cai''. Mas não me divirto com filmes sanguinários, corpos retalhados. A mim interessa a emoção do medo, o medo lá de dentro, aquele que obriga você a explorar o lado dark da natureza humana.

Como foi seu encontro com Amenábar?
Ele escreveu uma carta me convidando. Respondi que sim, ou mais ou menos que sim. Ele me mandou o roteiro. Me interessei. Fui a Madri e conversei com ele. Depois, uma semana antes de começar a filmagem tive medo e achei que o filme não mais seria realizado. Como implicava num mergulho no inconsciente, se instalou em mim uma espécie de resistência.

Em quem se inspirou para criar seu personagem?
Segui as indicações do diretor, que sabia bem o que queria. Queria muito que ele encontrasse justificativas profundas para uma mulher que carrega um segredo tão terrível.

Três filmes em um ano, ''Moulin Rouge'' em lançamento por todo o mundo, ''The Others'' e ''Birthday Girl'' em Veneza. Você se sente uma atriz realizada?
Quem escolhe esta profissão quer interpretar todos os papéis do mundo com os melhores diretores. É o que estou fazendo. Quis trabalhar com Amenábar, disse isto muitas vezes e trabalhei. Quis Lars von Trier e fui à Dinamarca fazer ''Dogville''. Quero voltar a ser dirigida por Jane Campion, com quem já fiz ''Retrato de Uma Mulher''. Estou sempre seguindo adiante.

De que maneira você se recorda de ''De Olhos Bem Fechados'' (NR: o filme de Kubrick, com a atriz e o então marido Tom Cruise, foi lançado há dois anos em Veneza) aqui no Festival?
Com o tempo o filme terá mais e mais significados. Para mim foi uma trajetória íntima, psicólogica que marcou muito, também pela inesperada morte de Stanley, de quem fiquei muito amiga. Por aquele momento e também por agora sou muito ligada ao Festival de Veneza.

Você agora vive um momento de grande sucesso pessoal, brilha sua luz própria, sua carreira decolou de vez. Isso muda alguma coisa?
São os outros que me vêem de maneira diferente. Sou sempre a mesma a popularidade não é meu objetivo. Fazer filmes comerciais me interessa pouco, mas se um meu filme agrada também ao público então fico ainda mais contente. Estou sempre em movimento por causa do trabalho. A próxima etapa é Londres, onde em dezembro volto ao teatro com uma peça de Ibsen. O teatro para mim é vital.

Sua aparência é de alguém muito tranquila, com muita serenidade. É assim mesmo?
Estou tranquila mesmo, e principalmente porque estou aqui falando de um filme inquietante, profundo, elegante, sem precisar responder a nenhuma pergunta sobre minha vida privada. Nas telas, em ''Moulin Rouge'', sou divertida, canto, vivo, morro. Em ''The Others'' tomo pela mão crianças com a idade de meus filhos, me confronto com suas travessuras. O trabalho me espera, me espera a vida feita de todas as emoções que muitas vezes estão na tela, nos meus filmes.

mockup