Atriz Milla Fernandez conta como é 'atravessar o fogo'
Protagonista de "TIP" transformou sua experiência de camgirl, durante a pandemia, num espetáculo que será reapresentado nesta terça (23)
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terça-feira, 23 de junho de 2026
Protagonista de "TIP" transformou sua experiência de camgirl, durante a pandemia, num espetáculo que será reapresentado nesta terça (23)

Milla Fernandez reapresenta nesta terça (23), no FILO, o espetáculo “TIP – Antes que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo”, às 20 horas, no Cine Teatro Ouro Verde.
O título da obra já deixa claro a inversão das regras do jogo que Milla propõe em seu solo: transforma o medo de ser exposta em autoexposição e a vergonha em coragem, envolvendo o público com muito bom humor e uma atuação fascinante. Com direção de Rodrigo Portella, um dos mais destacados diretores da atualidade, “TIP” (“gorjeta”, em inglês) parte de uma experiência real de Milla como camgirl (profissional que trabalha transmitindo conteúdo adulto ao vivo pela internet) durante a pandemia. O ofício foi uma saída possível para sustentar a si mesma e a própria família nesse momento de falta de perspectiva profissional.
Levar essa experiência para os palcos fez de Milla Fernandez a vencedora do 20º Prêmio APTR na categoria Jovem Talento no último dia 16. Nas redes sociais, ela declarou: “Revelação da artista para o público, mas também revelação de um segredo que eu achei que guardaria para sempre.” Além de abordar as lives de conteúdo adulto, a peça também fala de laços familiares, relações afetivas, trajetórias íntimas e dilemas da vida de atriz.
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CARNE VIVA SOB OS REFLETORES
Em conversa com a equipe de Comunicação do FILO, Milla contou como é curioso ser reconhecida por uma história que em algum momento pareceu ser sua derrocada: “Desde os 14 anos, eu sabia que queria ser atriz. Fiz de tudo pra conseguir seguir esse caminho de uma maneira louvável, nobre, consistente. E eu sei a maneira como a sociedade olha para esse trabalho de camgirl… Então tem um gosto muito bom ser reconhecida, mas é muito irônico ser justamente por falar em voz alta uma coisa que eu pensei que poderia arruinar a minha carreira. Mas, se eu não fizesse isso, ficaria paralisada, porque tinha muito medo de as pessoas descobrirem”.
O espetáculo é então esse gesto de Milla de atravessar o fogo por ela mesma, queimar e sobreviver. Em carne viva sob os refletores, lançar luz sobre as próprias sombras e cicatrizes — e rir com elas — é se livrar do receio de ser exposta ou descoberta por outras pessoas. Milla não só saiu viva, mas muito mais forte: “Acho muito libertador poder falar disso com as minhas próprias palavras. De alguma maneira, sinto que estou tomando as rédeas. Isso tira o poder das outras pessoas, porque deixa de ser uma arma na minha cabeça”, comentou Milla.
BASEADA EM FATOS REAIS
No início do trabalho como camgirl Milla não pensou que isso serviria como uma pesquisa para um futuro espetáculo: “A decisão que tomei foi puramente por entender que daria um retorno financeiro imediato”, explica ela. A percepção mudou logo no primeiro dia, depois de uma live lhe render apenas algumas dezenas de reais: “Não dá pra eu passar por isso e não fazer nada depois como artista. Tudo é material”, completou.
Depois de dois anos e com a pandemia chegando ao fim, a dedicação ao trabalho online foi parando de fazer sentido, somado ao desgaste de Milla, que fazia turnos de madrugada, com um computador emprestado de sua irmã: “Eu dormia supermal. Não queria ter essa carreira, então trabalhar com alguma coisa que você não quer e que não era necessariamente agradável não me satisfazia para além do financeiro”.

A partir daí, a escrita da peça durou três anos e só foi possível à base de muita terapia: “No início, foi muito terapêutico. Eu só consegui fazer essa peça porque fiz terapia. Só por isso pude ter força suficiente. Eu danço, canto, pulo, conto uma série de coisas. Então é exaustivo fisicamente e emocionalmente. É uma peça sobre mim, sobre algo que eu pensei que poderia acabar comigo”. Milla acredita que o fato de o espetáculo beber de uma experiência real impacta profundamente o processo: “É um lugar de muito risco, que divide opiniões”, avaliou.
O PODE DE TRANSFORMAR
O poder das artes talvez seja abrir espaço para tocar em assuntos que não seriam alcançáveis de outro modo: “Eu acho que “TIP” realmente tem um poder de expressão que eu nunca conseguiria ter só falando. Realmente o teatro consegue… Ele é tão poroso, tem tanto espaço, tantas camadas de interpretação, de leitura possível, tantas texturas. Só falar sobre isso nunca chegaria aos pés do que é poder colocar no mundo a experiência dessa forma”, declarou Milla, emocionada.
Apesar de se tratar de uma experiência autobiográfica, quando transposta para os palcos, se torna outra coisa. Transformar a vida em obra é expandi-la e ir além. Ser você e ao mesmo tempo ser outra. Usar uma máscara e se desnudar como nunca antes. Em “TIP”, o palco é o espaço perfeito para assistirmos a essa fogueira acontecer: “A peça condensa tudo que vivi naquele momento e tudo que não vivi. Tudo o que imaginei, tudo o que projetei, tudo o que senti, tudo o que pensei e não contei pra ninguém. E está em detalhes! Realmente tem camadas de emoção, de estados de pensamento, de críticas, de comentários, que coloco ali que são coisas que não admito nem pra mim mesma. É um espaço de liberdade imenso. Está tudo ali. Até o que eu ainda não sei”.
O FILO 2026 é apresentado pelo Ministério da Cultura e pela Petrobrás, que também é patrocinadora master do Festival. O evento conta ainda com patrocínio da Prefeitura Municipal de Londrina por meio da Secretaria Municipal de Cultura/Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
* Com assessoria.


Da Redação
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