Os dois espetáculos que o grupo Cemitério de Automóveis traz ao Filo 2000 representam o claro caminho de amadurecimento da dramaturgia de Mário Bortolotto no decorrer do tempo. ‘‘Efeito Urtigão’’, apresentado ontem, e ‘‘Felizes para Sempre’’, que será apresentado hoje, revelam um conteúdo mais sólido ao estilo personificado do dramaturgo londrinense, uma trajetória que vem se tornando mais visível após ‘‘Medusa de Rayban’’, montagem de 1996.
Sem deixar de lado seu estilo considerado ‘‘marginal’’ e ‘‘debochado’’, Bortolotto vem colocando em seus textos, cada vez mais, elementos existencialistas. O detalhe está no fato de não utilizar tais elementos de maneira direta, evidente, mas nos detalhes da narrativa apresentada. A partir de personagens duros e ásperos, insere, com sutileza, condições existenciais limites presentes na realidade da vida urbana.
Em síntese, apresenta o homem atual como um ser que, para lutar por seus ideais, sonhos e desejos, precisa ser um sólido bloco de concreto. Por outro lado, no mesmo ritmo, a carência emocional elimina a própria capacidade das pessoas se constituírem como blocos de concreto. O amor, no caso de ‘‘Felizes para Sempre’’, e a amizade em ‘‘Efeito Urtigão’’, se transformam em opção salva-vidas para a dor da existência, ou melhor, na dor provocada pela incapacidade de cada um conseguir aquilo que deseja da vida no exercício de seu papel básico.
Em ‘‘Felizes para Sempre’’, peça de dois pequenos quadros, fica evidente a utilização de uma recurso cada vez mais recorrente na estrutura cênica de Bortolotto. Utiliza um ritmo onde se ergue uma imagem tensa, pautada pelo conflito, para logo em seguida desconstruí-la utilizando as ferramentas de um humor cínico e irônico. Através dos altos e baixos de um encefalograma, apresenta, numa espécie de tradução desbocada, as cotidianas nuances de amor e ódio entre casais - como se a harmonia do lar fosse uma preparação para as brigas e as brigas uma preparação para a harmonia. Em outras palavras, demonstra que homem e mulher querem amor mas não sabem como ofertá-lo, nem como recebê-lo. Nesse processo, o que sobra é o aprendizado, o argumento que a cada dia ganha mais peso na praia das investigações das emoções humanas: só odeia quem ama. Ou, pegando mais pesado, o eco de um velho refrão de Jean Genet: ‘‘Todo homem destrói aquilo que ama.’’
Em ‘‘Efeito Urtigão’’ a ironia existencial ganha maior evidência. Chega ao ponto de sugerir que, mesmo se isolando, recusando-se em ser uma das peças do sistema que cultiva a sistemática idiotização das pessoas, um homem pode contribuir para tal intento. Apresenta, de maneira não evidente, um dos grandes questionamentos realizados atualmente por operários e criadores éticos: qual o real objetivo do trabalho dissimulado sob o manto da sobrevivência? Tudo envolvido por um humorado sarcasmo - um dos elementos nativos do terra do Cemitério de Automóveis.
Dentro da crua encenação do teatro de Mário Bortolotto, não seria exagero prever que, dentro dos caminhos da dramaturgia brasileira, daqui a alguns anos a obra de Mário Bortolotto será respeitada como a obra de Plínio Marcos é respeitada hoje. As semelhanças podem ser polemizadas, mas fica evidente que os textos de Bortolotto são germinados dentro de um estilo praticamente único no teatro brasileiro.

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