Recife, 02 (AE) - "Através da Janela, de Tata Amaral, foi o grande vencedor do 4.º Festival de Cinema do Recife. O longa ganhou os troféus de melhor filme, roteiro (Tata Amaral, Fernando Bonassi e Jean-Claude Bernardet) e atriz (Laura Cardoso). Os outros prêmios foram divididos. Hans Staden" ficou com fotografia e direção de arte. João Batista de Andrade ganhou o troféu de diretor com seu O Tronco. "No Coração dos Deuses" ficou com trilha sonora, som e ator (Antônio Fagundes).
"Milagre em Juazeiro foi contemplado com o troféu de montagem. Ou seja, imperou o distributivismo, que é a forma democrática encontrada pelos festivais para que ninguém saia sem a sua lembrancinha. Entre os curta-metragens, divididos por gênero, ganhou "De Janela pro Cinema (Quiá Rodrigues) na categoria animação; Passadouro" (Torquato Joel) na de documentário; e E no Meio Passa um Trem (Nando Olival e Fernando Meirelles), na de ficção.
A noite de premiação, com o Teatro Guararapes (2.200 pessoas sentadas) lotado mais uma vez, foi encerrada com a pré-estréia nacional do vigoroso Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna. Um título que tende a tornar-se citação obrigatória a cada vez que se for falar em violência urbana como tema para o cinema. Anunciou-se também o "filme brasileiro do século", atribuído a Central do Brasil por uma votação popular feita pela Internet - o que mais uma vez demonstra a inutilidade desse tipo de eleição. As pessoas se lembram do filme mais recente que viram e gostaram e não demonstram a menor preocupação com a perspectiva histórica.
Interessa mais destacar o acerto geral da premiação do júri oficial. De fato, Através da Janela era mesmo o filme a ser valorizado. Aliás, o júri poderia ter até mesmo ampliado a vitória desse novo longa-metragem de Tata Amaral. Ele dá continuidade a uma linha de pesquisa escolhida pela autora, a tragédia da classe média urbana, flagrando, no limite da esfera familiar, o impasse dos personagens. São famílias sempre incompletas. Tanto em "Um Céu de Estrelas quanto em Através da Janela" falta o pai. No primeiro, a mãe é personagem secundária, mas que fornece todo o pathos da história. No segundo, é a protagonista.
Magnificamente interpretada por Laura Cardoso, Selma é a enfermeira aposentada que perde, pouco a pouco, o controle sobre o filho único, Raí (Fransérgio Araújo). Há como uma lenta intromissão da realidade exterior naquele casulo levemente incestuoso em que vivem a mulher aposentada e o filho desempregado. Esse real vem chegando aos poucos, pelas frestas, por debaixo da porta, minando algo que, para Selma, parecia muito estável e seguro.
É um filme sobre as mães e também sobre os filhos. Sobre a falta de perspectiva social (fazendo lembrar, em outro registro, "Romance de Jovem Homem Pobre", de Ettore Scola), cheio de compaixão pelos personagens, a quem trata, no entanto, sem nenhuma pieguice. Esse radicalismo de tratamento, seu tom árido, como as vidas que retrata, dificultam, de certa maneira, a comunicação do filme com a platéia. E mesmo com parte da crítica. Trata-se, no entanto, de um trabalho que tende a crescer com o tempo, à medida em que for sendo assimilado.
A grande atração da noite de entrega dos troféus, embora não concorresse a nenhum deles, foi certamente, "O Rap do Pequeno Príncipe". Com este documentário, os diretores Paulo Caldas e Marcelo Luna juntam-se à vertente brasileira do cinema urgente, aquele que se joga em corpo-a-corpo direto com a realidade no que esta tem de mais duro, instável, perigosa. Apresentando seu trabalho no palco, Luna disse que o filme iria mostrar a vida, com suas belezas e seus problemas. "A beleza, a gente celebra; e os problemas, a gente não esconde debaixo do tapete", disse.
Frase simples, mas que define bem o projeto. "Rap do Pequeno Príncipe" não exibe o temor escandalizado da classe média diante da escalada da violência. Nem cai na armadilha contrária, que seria o endeusamento da marginalidade. Registra, apenas, de maneira tão imparcial quanto seria possível, algumas das notáveis contradições da sociedade brasileira.
Uma delas, a que aparece no interior mesmo da imensa fatia social composta pelos desvalidos. O filme segue, implacavelmente, duas vidas paralelas, nascidas num mesmo lugar, Camaragipe, barril de pólvora na periferia do Grande Recife. Um dos personagens, Helinho, o "pequeno príncipe" do título, torna-se matador. Justiceiro, como se diz. Outro, Garnizé, vira rapper, cabeça pensante da banda Faces do Subúrbio. Há uma beleza dura que emerge do acompanhamento dessas duas linhas de existência, uma que pratica a violência no plano real, outro que a trabalha na esfera simbólica, para que talvez possa ser exorcizada, ou encaminhada de outra maneira.
Mas o filme não é apenas isso. É também a possibilidade de visualizar essa beleza dura que vem da periferia do sistema. A música quase apenas rítmica, o piercing e as tatuagens radicais, o baile funk, o skate. Não são atividades neutras, ou de lazer ou entretenimento. São gritos. Ou advertências para a sociedade. Há um plano aéreo assustador, a cidade e seus arranha-céus, cercada pela periferia, enquanto Mano Brown vai enumerando os nomes desses bairros que o imaginário das elites deseja isolado do coração econômico do sistema. "Rap do Pequeno Príncipe é um filme de beleza convulsiva. Radical.

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