Curitiba - O som é universal. A música atravessou fronteiras e invadiu Curitiba durante as duas semanas de programação da 20ª Oficina de Música de Curitiba, que terminou na sexta-feira. Dividido em duas fases, uma erudita e outra popular, o evento trouxe ao Paraná grandes músicos do mundo inteiro e atrás deles alunos de países distantes como a África do Sul.
Nomes como o do violoncelista Antônio Menezes deram trabalho aos produtores do evento, segundo contou por telefone Janete Andrade, consultora de música e presidente do Conselho Curador da Oficina. ‘‘Queríamos um alto nível para o evento. Tivemos que contatar com o Menezes, por exemplo, várias vezes. Para você ter uma idéia, eu fui ao Rio de Janeiro falar com ele e depois o Alex Klein (outro dos organizadores) contatou com ele na Suíça. Acabamos por convencê-lo a abrir uma brecha na sua agenda e foi uma maravilha a participação dele’’.
Esta preocupação com a presença de nomes como Menezes não foi menor na hora de buscar os outros cerca de 120 professores que vieram de países distantes e também do Mercosul. O nível de professores garante o sucesso das aulas, já que os grandes nomes da música atraem alunos. ‘‘Os alunos andam atrás dos mestres. Nem precisamos fazer muita propaganda não. Eles ficam sabendo que um grande nome vem para cá e vem atrás’’, disse Janete.
Uma das outras importantes presenças foi a do paranaense, residente no Brasil e na Alemanha, Chico Mello. Especialista em música contemporânea, Mello balançou a cidade com suas técnicas nada comuns de estimular seus alunos. ‘‘Não podiamos deixar nada de fora. Temos que perceber o que a sociedade está pedindo. O Núcleo de Música Contemporânea do Chico Mello foi um sucesso’’. Este contou com a participação de músicos alemães, presentes nas oficinas e que ensinaram as turmas a explorarem sons que nos cercam o tempo todo. Durante as aulas, alunos entrelaçaram as mãos, gritaram, bateram os pés no chão e aprenderam como o som está presente o tempo todo e como é possível sempre inventar uma nova música.
Outra grande surpresa, segundo contou Janete, foi o grupo de Canto dos Índios Sagrados Guaranis. A diversidade musical impressionou a curadora. ‘‘Você chega num bosque e vê um grupo de 20 alunos fazendo um som incompreensível. É muito bonito’’.
A versatilidade musical tomou conta da cidade durante as últimas duas semanas e resultou também em grandes espetáculos. Um dos grandes momentos da primeira fase foi a apresentação dos 200 alunos da primeira fase da 20ª Oficina. O grupo ensaiou, em apenas uma semana, a apresentação da 4ª Sinfonia de Mahler, uma interpretação dificílima de ser executada, segundo Janete. ‘‘Fiquei muito impressionada com a produção de altíssimo nível apresentada por eles no encerramento da fase erudita. Foram montadas três orquestras, uma camerata barroca e ainda uma orquestra só para regência em sala de aula. Um luxo’’.
Este luxo foi alcançado com as parceria montadas ao longo de sete meses de trabalho intenso, feito por Janete e nomes como Eunice Brandão, Alex Klein, Chico Mello, Hélio Brandão e Sergio Abach. Durante os 14 dias de aulas e apresentações, a equipe aprendeu muito também com a força de vontade de alguns músicos nativos. Janete cita o exemplo dos músicos vindos da Ilha das Peças, litoral do Paraná. ‘‘O trabalho e o esforço dos fandangueiros em chegar até aqui mostrou o quanto é importante a valorização da nossa música. A gente tem obrigação de dar força para eles. Para não deixar a nossa música morrer’’. Somente um fato fez a tristeza ecoar nos corredores por onde os alunos e professores participantes no evento passaram. A falta de Eunice Brandão, uma das curadoras e organizadora da Oficina de Música Antiga. ‘‘Ela deixou pronta sua oficina e morreu no dia 31 de agosto passado. Dedicamos este evento a ela’’.

mockup