Jackeline Seglin
De Londrina
‘‘Eu tenho o hábito de ver o mundo bonito. Procuro fazer o possível para deixá-lo agradável.’’ É dessa forma que o detento José Fidêncio Leonel – o Jofinel – tem levado sua vida como interno da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Preso há 4,4 anos, ele aproveitou o tempo para realizar um antigo sonho: escrever um livro.
No mês passado, o detento lançou ‘‘O Sol no Horizonte’’, uma espécie de relato sobre sua vivência nos presídios. Jofinel descreve os períodos de adaptação depois das transferências e fala da rotina, da linguagem própria do ambiente – uma novidade para ele – as tentativas de fuga dos internos, as ações policiais e demais fatos ocorridos nos vários locais em que esteve.
Depois de um tempo na prisão, Jofinel tornou-se um ‘‘correria’’ (preso de confiança que presta serviços ao presídio), o que permitiu que ele incluísse em seus relatos comentários sobre plantonistas e internos. Situações e fatos isolados contados em detalhes, com nomes fictícios para pessoas e lugares. O livro, de 114 páginas, também traz acrósticos, pensamentos e crônicas sobre temas variados. O autor dedica o trecho final a acontecimentos de sua vida pessoal antes da prisão.
Nascido em Jataizinho, José Fidêncio Leonel diz ter morado a maior parte de sua vida em Londrina. Aos 50 anos, ele cumpre pena por um crime que prefere não comentar. ‘‘Fui condenado à revelia por um ato espiritual. Está tudo no livro.’’ Nas páginas finais de ‘‘O Sol no Horizonte’’, ele tenta explicar sua acusação por ‘‘Atentatório ao Pudor e à Moral’’. A direção da penitenciária não esclareceu o crime à reportagem por entender que é direito do preso não querer se manifestar a respeito. Explicações, só no livro.
A idéia de escrever sua história surgiu dentro da prisão. ‘‘Eu queria mostrar o que eu vi, conheci e com o que convivi dentro do presídio, um mundo completamente oposto àquele que eu conhecia. Quem ler o livro vai sentir isso. É quase uma autobiografia.’’ O autor se empolgou com a tarefa. Não largava mais as anotações. Escrevia dentro e fora da cela, no pátio e até na barbearia, onde trabalha atualmente.
O começo de tudo foi na triagem – segundo ele, um lugar ‘‘onde nada se faz’’. ‘‘Resolvi escrever alguns poemas para passar o tempo. Não imaginava que tornar-se-ia um fato sério, de escrever um livro, pela experiência vivida.’’ Veio a transferência para o setor de ‘‘artesanato’’. ‘‘Além de escrever, eu também pintava e desenhava. Nunca fiquei ocioso. Sempre procurei ocupar ao máximo o meu tempo. Já fiquei escrevendo até quatro horas da manhã. Tinha dias que amanhecia. Durmo com o caderno e a caneta.’’
Foi o próprio detento quem bancou a edição dos mil exemplares de ‘‘O Sol no Horizonte’’. Segundo ele, para o material sair da Penitenciária foi necessário algumas etapas. ‘‘O livro passou pela censura e pela direção e foi enviado para minha família. Bati tudo à máquina aqui na PEL, mandei para minha irmã e minha sobrinha mandou editar.’’
O escritor não se dedica somente à literatura. Além de cortar o cabelo de 370 presos, seo Leonel – como é conhecido entre os internos – diz que também faz as homilias na Penitenciária. ‘‘Quando o padre não vem, eu faço o sermão.’’ Ele ressalta sua ligação afetiva com os internos. ‘‘Sou o porta-voz deles. Qualquer comemoração, é o seo Leonel que vem fazer. Se um preso brigava com a esposa, me pedia pra escrever uma cartinha. Eu fazia a mulher voltar.’’
Dono de uma caligrafia caprichada, Jofinel lembra que estudou Filosofia e Teologia e foi professor de português por 19 anos. ‘‘Também trabalhei com advogados na área tributária’’, complementa. Antes disso, foi seminarista e serviu o Exército. ‘‘Conheço a disciplina.’’
Depois dos anos de reclusão, o escritor está ansioso e diz aguardar a liberação da Justiça para deixar a Penitenciária em poucos dias. ‘‘Sempre estive pronto para enfrentar o mundo lá fora. A cadeia não fez minha cabeça.’’
Jofinel está terminando mais dois livros, que devem ser lançados até dezembro: ‘‘Momentos de Minhas Emoções’’ e ‘‘A Busca da Própria Identidade’’.
- ‘‘O Sol no Horizonte’’, livro de José Fidêncio Leonel. À venda na Livraria do Centro Espírita Nosso Lar (Rua Santa Catarina, 429), Livraria Livros e Livros (Rua Pará, 776) e na Catedral de Londrina. Preço: R$ 10,00.

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