É possível ficar excitado lendo histórias em quadrinhos o ''excitado'' aí no sentido sexual do termo? O jornalista, editor, desenhista e roteirista Franco de Rosa tenta provar que sim no livro de bolso ''As Taradinhas dos Quadrinhos'' (Opera Graphica), no qual rastreia a trajetória feminina nas HQs traçando perfis das personagens que mais provocaram a libido da molecada.
Valentina, Druuna, Betty Boop, Vampirella e Mirza são algumas das beldades de papel exaltadas no volume. ''Hoje, a sensualidade é flagrante na maioria dos quadrinhos juvenis. Não existe heroína que não seja gostosa. Qualquer fêmea apertadinha dentro de seu uniforme é uma taradinha em potencial. Todas as moças da equipe X-Men são ativas devoradoras de homens'' afirma o autor no terceiro parágrafo.
Mas nem sempre foi assim. Nas três primeiras décadas dos comics, a figura da mulher era retratada sem malícia surgindo como coadjuvante ou vilã em séries como Fantasma, Spirit, Mandrake, Batman, Superman e Flash Gordon. O apelo erótico foi aparecendo gradativamente nos quadrinhos, na esteira das mudanças de comportamento e à medida em que o gênero deixava de atender apenas ao público infantil para conquistar outras faixas de leitores.
Valentina, a mais famosa pin-up dos gibis, é lembrada no livro como a heroína cujo sucesso deu origem ao filão ''quadrinhos de mulher pelada para intelectual ler''. Criada em 1965 pelo italiano Guido Crepax, ela passou de personagem secundária na série Nêutron (que contava as aventuras de um super-herói que não usava máscaras nem uniforme) para chamariz da revista de vanguarda Linus.
''Valentina é a taradinha dos quadrinhos mais conhecida do planeta. Até mesmo quem jamais leu uma história dela, a conhece. Tudo bem que é difícil ler Valentina. Mas olhar as figuras, todos olham'' observa o autor. Graças a ela, Crepax ostentou a coroa de mestre do quadrinho erótico durante vinte anos lançando ainda outras meninas fogosas em séries como Emmanuelle e História de O.
Crepax só foi superado por outro italiano, Milo Manara, quando este publicou a série ''O Clic''. Manara assinou ainda ''As Aventuras de Giuseppe Bergman'', cuja personagem principal tem cara de Alain Delon e vive metido em confusões em lugares exóticos, sempre com muita ação e sacanagem. É uma de suas histórias mais badaladas. Foi com ''O Clic'', porém, que ele estabeleceu de vez seu prestígio.
Esta série é estrelada por Claudia Christiani, a fria e esnobe mulher de um bem-sucedido executivo que se transforma numa tarada insaciável ao ser controlada por um aparelhinho que se conecta com as células da libido de seu cérebro. Crepax e Manara têm a companhia ainda de Eleuteri Serpieri na linha de frente do quadrinho erótico mundial. Ele é o criador de Druuna, a curvilínea protagonista de uma história que mistura ficção científica, erotismo e pornografia.
Já saíram sete aventuras da heroína. Apenas a última não foi lançada no Brasil. Franco de Rosa sugere que a silhueta de Druuna foi inspirada na modelo brasileira Sonia Lima, que teria realizado um ensaio fotográfico para a revista Playboy brasileira posteriormente publicado na Playboy italiana. Apesar de despretensioso, o painel traçado pelo autor cobre criações de vários países.
Além da Itália, ele focaliza a França como grande fornecedora de femme fatales voluptuosas e cenas picantes generosas para as HQs. Lembra que coube ao parisiense Georges Pichard abrir o caminho para o pecado desenhando ninfetas roliças como Lolly Strip, Blanche Epiphanie, Paullette, Ulisses e Kama Sutra. Pichard ilustrou ainda aventuras perversas de sadosamoquismo e obras divertidas de sacanagem como ''Marie-Gabrielle de Saint Europe'', ''A Condessa Vermelha'', ''Borne Joe'' e ''Carmen de Merimée.
Também francês, Georges Levis (Jean Sidobre) fez os olhos de muitos garotos e, no caso, garotas também brilharem com os álbuns protagonizados pelo casal de lésbicas Liz e Beth. Criadas em 1979, suas histórias chegaram ao Brasil durante o boom dos quadrinhos adultos ocorrido na segunda metade dos anos 80. ''Juntas, elas iniciavam outras garotas em audaciosas aventuras. Mas elas não se esqueciam de atacar os homens'' conta Franco de Rosa.
Da produção norte-americana de comics, o livro destaca as ''mulheres grandonas'' desenhadas por Robert Crumb. O autor lembra que o mestre do underground dava vazão a seu fetiche pelos pés femininos sem jamais mostrá-los nus, mas calçados por meias soquete e sapatos pretos estudantis. ''Crumb transferia para seus quadrinhos suas obsessões. As mulheres que ele aprecia fisicamente são robustas e selvagens, e adoram pisar nos homens'' escreve.
O Brasil entra no livro através de personagens como Naiara (a Filha de Drácula), Mirza (a Mulher Vampiro) e Maria Erótica. Esta última, criação de Cláudio Seto, recebe atenção especial no livro. A personagem é uma mulher dividida entre a preservação da castidade e a busca do prazer sexual. Em uma de suas aventuras mais conhecidas, que o autor chama de obra-prima, ela é seduzida por um depravado Pipinóquio, um boneco de madeira que adora contar mentiras porque a cada mentira vê seu pênis crescer.
Na mesma aventura, a heroína passa a sacanear Peter Pan, Sininho, a Bela Adormecida, Alice, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e outros protagonistas de histórias infantis. Nem mesmo Drácula escapa. Aqui, ele é parodiado por um improvável Conde Ejácula, um vampiro que em vez de pescoço, gosta de morder a bunda.
Serviço: Lançamento: ''As Taradinhas dos Quadrinhos''. Autor: Franco de Rosa. Editora: Opera Graphica. Preço: R$ 7,90. Pontos de venda: Batbanca (Rua Raposo Tavares, nº 687, Londrina) e Itiban Comic Shop (Av. Silva Jardim, nº 845, Curitiba).

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