Durante a infância, Carlinhos tinha tudo. Roupas de marca. Os últimos lançamentos em brinquedo. Tudo o que queria, bastava pedir aos pais. Esses não economizavam para dar ao filho - único - tudo o que não tiveram. O pedido do menino soava - aos ouvidos paternos - como uma ordem. '' - Eu posso!'', dizia sempre o menino, que ao ganhar um brinquedo se concentrava logo em outro, mais potente, mais bonito, mais qualquer coisa.... O que acabara de ganhar já não tinha mais graça.
E assim, Carlinhos foi crescendo. Na adolescência, trocava de namoradas como os carrinhos que trocava na infância. É que cansava da menina e partia para outra e depois para outra, sem a menor cerimônia. Afinal, quantidade é mais interessante que qualidade. Vez e outra, Carlinhos - ou melhor Cauê, agora adolescente, forte com músculos de academia, se metia em confusão.
Na escola, agredia os colegas de turma. O alvo preferido era sempre o mesmo: colegas que fogem do padrão do seu círculo. O magricelo cheio de espinha. O baixinho acima peso. O garoto com ares andrógenos. Cauê batia de frente também com os professores. Esses abordavam valores como respeito ao próximo, solidariedade e ética. Ética? Cauê perguntava aos mestres? Onde podia comprar um pacote para comer no intervalo. '' - Hahahaha. Ética? Sem noção!''
E o tempo foi passando. O perfil de Cauê se consolidando. Ele era o dono da turma. O dono das regras. Dividir não existia no seu vocabulário. Só fazia algo se tivesse proveito próprio. Pensava no seu prazer. Era imediatista. E os outros? Tudo bem, desde que fosse para servi-lo.
O tempo passa. De menino a adolescente a adulto. Cauê - agora senhor Carlos - afinal Cauê não fica bem para o diretor geral da empresa. Dono do próprio negócio precisa manter a imagem. A empresa que assumiu do pai - morto aos 47 de ataque cardíaco fulminante na mesa do escritório - já não ia tão bem.
Os negócios da família estavam ruins. A mãe - consternada - tentava falar ao filho. Era cortada rispidamente. '' - Não me venha com essa, de novo.'' Os negócios da família não tinham tanta importância. O lazer, o prazer, o beber eram prioridade. Nem o filho de um ano e meio mudou a rotina de Carlos.
O filho de Carlos era o sonho de futuro da avó, que se perguntava. '' - Onde foi que eu errei?''. A nora tentava - em vão - consolá-la. Nada adiantava. '' - Essa história não vai acabar bem'', profetizava a avó e mãe.
Não muito longe dali... reunido na empresa com o diretor de Expansão e Empreendedorismo e o diretor administrativo-financeiro, Carlos contabilizava um prejuízo de R$ 16,5 milhões. Valor perdido em ações num investimento de alto risco na Bolsa. Nem o telefonema da esposa ele atendeu. E foram vários...
Atordoado, Carlos liga para os amigos de sempre e marca no bar de sempre. A caminho, insuportavelmente irritado, não dá passagem a uma ambulância do Siate. Nem a nervosa sirene, que pede passagem insistentemente, consegue convencê-lo. '' - Vai se fuuuu...'', grita Carlos à ambulância. Ele ignora mais uma vez as chamadas telefônicas da mulher.
No bar, Carlos bebe todas. Quer extravasar. Quer relaxar. Quanto mais fala, mais bebe. E embriagado conta o prejuízo. Conta o baque da empresa; baque que não suportaria; ri da ambulância; desdenha aos amigos que travou o trânsito para o Siate.
E mais uma chamada da mulher. '' - Que foi? Por que você me liga tanto?'', perguntou com voz pastosa. '' - É o nosso filho. Eu liguei muito pra você e nada. Você não atendeu'', diz ela, que continua aos prantos. '' - Nosso filho caiu da escada de casa. Tentei falar com você. Meu carro na oficina. Aí liguei pro Siate. Mas a caminho do hospital, um carro travou o trânsito. Perdemos muito tempo. Quando chegamos ao hospital, já era tarde...''
REINALDO CÉSAR ZANARDI é jornalista e professor do curso de Jornalismo. Participou como cronista da coletânea bilíngue (português e japonês) ''Meu Brasil Japonês'' (2005).

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