Na burocrática, arrastada entrevista coletiva após a exibição de ''FanfanLa Tulipe'', nada muito aproveitável. Os principais envolvidos no projeto falaram com uma espécie de entusiasmo de encomenda, sonolentos, sem espontaneidade. O produtor-roteirista Besson achou justificativa na ''contemporaneidade'' do personagem. O diretor Krawczyk diz que viu o primeiro ''Fanfan'' quando criança (são da mesma idade), que o personagem é moderno e que ''comédia é difícil''. Perez achou similaridade com o personagem que fez em ''Cyrano'', que não se intimidou com ''a sombra de Gérard Philipe'', que pratica esgrima desde pequeno e que interpretou como se fosse um musical, comparando algumas correrias de agora com momentos, por exemplo, de ''Cantando na Chuva''. E Penélope Cruz, que teve que responder duas vezes que veio sem Tom Cruise, achou seu personagem com ''grande energia física''. Muito pobre e nada estimulante, todo este blá-blá-blá apenas para cumprir uma formalidade oficial no cronograma.
E não foi diferente a coletiva a seguir, reunindo os nove membros do júri oficial da mostra competitiva. Presidido pelo cineasta francês Patrice Chéreau, tem ainda os diretores Danis Tanovic, Jiang Chen e Steven Soderbergh, o escritor Erri de Luca, o ator Jean Rochefort e as atrizes Meg Ryan, Karin Viard e Aishwarya Rai. Os cineastas, sem exceção, já estiveram em Cannes na condição de concorrentes, e portanto suas observações são, por um lado, as de quem agora trocou de função: em vez de sofrer o estresse da competição, este é o momento de causar estresse, na síntese um tanto sádica do chinês Jiang Chen, prêmio especial do júri em 2000 por ''Os Demônios na Minha Porta''. Mas há também, e como sempre, o lado aberto, aquele capaz de se deixar envolver pelo novo, de ansiar pela surpresa. Alguém disse a mesma coisa, ano passado, e no anterior, e no outro...
Já o trio de belas juradas tem mais ou menos a mesma postura, sintetizada por uma Meg Ryan que andou se deixando influenciar pelo novo desenho de bocas hollywoodianas siliconadas - embora nela o resultado, mais discreto, seja bem superior ao de Melanie Griffith, por exemplo. A francesa, a indiana e a americana comungam do mesmo ponto de vista enquanto juízas: são estudantes em fase de aprendizado.
E Cannes respira Fellini por todos os cantos. No Palais, em vitrines de lojas, nas livrarias, ao longo de Croisette que a partir de hoje vai se encher das mais belas sonoridades fellinianas através de concertos ao ar livre com as trilhas sonoras de seus filmes. Quase toda a obra( faltam os sketches para filmes coletivos, como ''Toby Dammit'' para ''Histórias Extraordinárias'' e ''As Tentações do Doutor Antonio'' parea ''Boccacio 70'') do cineasta de ''La Dolve Vita'' está sendo reapresentada em cópias zeradas, muitas em trabalho de ourives da Cinemateca de Bolonha. Mas quem anda por aqui durante este tempo de festival, de dia ou à noite, sabe que Cannes é permanentemente um retrato felliniano a céu aberto. (C.E.L.J.)
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.

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