Ele é da Província de Salta, no Noroeste da Argentina. Partiu em direção a um universo novo e desconhecido. O local: avenida Brasil, um movimentado corredor de passagem de pessoas e veículos, no centro de Foz do Iguaçu. A cena chama a atenção dos pedestres: um homem trajado com um manto marrom, que cobre seu corpo dos pés ao pescoço, suportando uma temperatura acima dos 34º, permanece em pé por mais de quatro horas realizando apenas movimentos sutis.
O homem comporta-se como uma estátua diante dos espectadores. Não profere palavra alguma, apenas realiza movimentos sutis com os lábios e com os braços.
À primeira vista, a impressão é a de que se trata de um mendigo pedindo esmolas. Porém, quem se aproximar da imagem estática do ator de teatro argentino Javier Carrizo, 31, vai se frustrar, por não conseguir a resposta para a questão que paira no ar: quem é esse homem, o que está representando e o que ele faz aqui?
A cidade de origem de Javier Carrizo é Salta, 420 mil habitantes, capital da província que tem fronteira com Chile, Bolívia e Paraguai. Interiormente, divide território com as províncias de Santiago del Estero, Catamarca e Tucumán. A heterogeneidade do solo e do clima fazem da região um belíssimo paraíso natural. A geografia de Salta é composta por montanhas, vales férteis de agradáveis temperaturas e o sol brilha o ano todo. A cidade ainda é abençoada por um rico patrimônio cultural, revelado através da música folclórica e manifestações religiosas.
Uma dessas manifestações, conhecida no mundo todo como ‘‘La Pachamama’’, serviu de inspiração para Carrizo compor aquele excêntrico personagem. O termo ‘‘Pachamama’’ tem origem na civilização Inca, no Peru. Pacha significa mundo, universo, e Mama, Mãe. Então, Pachamama quer dizer Mãe Natureza ou, em espanhol, la Madre Tierra.
Os antigos povos indígenas atribuíam a rica fertilidade do solo a uma dádiva de Pachamama e costumavam retribuir a generosidade realizando rituais de sacrifício de rebanhos em louvor a Mãe Terra e ao Deus Inti. Os incas consideravam a produção agrícola um ritual de intermediação do homem com a mãe natureza, no qual o homem incorporava a terra a si mesmo, organizando e adaptando-a seu meio de vida. Dessa forma, a agricultura para esta comunidade não representava apenas uma atividade econômica, mas principalmente uma relação entre o criador e sua criatura.
Ainda hoje é possível encontrar comunidades no interior dos países andinos que preservam a cultura de Pachamama. Um desses lugares é a cidade Amaicha del Valle, na província argentina de Tucamám. Localizada ao sul da província de Salta, Amaicha del Valle, única cidade do norte argentino onde ainda se encontra comunidade indígena, recebe todos os anos, em fevereiro, centenas de adoradores de Pachamama, turistas e muitos curiosos para a celebração da ‘‘Fiesta de la Pachamama’’.
A crença em ‘‘la Madre Tierra’’ é uma das poucas tradições que ainda sobrevivem no interior da Argentina, conta Javier Carrizo. Por alguns instantes, ele desceu do pedestal que serve de palco para sua apresentação e falou à Folha sobre sua crença em Pachamama e um pouco sobre sua vida.
Carrizo é casado e tem um filha, que o acompanha em sua cruzada mundo afora. Eles pretendem seguir para Porto Alegre nos próximos dias, para depois partir para o norte e nordeste brasileiro. A aventura deste homem deve terminar no México, país onde pretende viver e educar sua filha.

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